domingo, 11 de novembro de 2012

O vômito




‘’O vômito’’
Por: Junior Nodachi

O recreio é uma hora especial em minha vida, faz tudo valer a pena, todas as outras horas terem significado. Quando o sinal bate, eu sou sempre o primeiro a correr, mesmo quando não tinha sinal.
Eu adoro o recreio. São quinze minutos de diversão ilimitada. E pensa que a dois minutos atrás eu estava comendo iogurte, leite achocolatado, biscoitos e meio sanduíche.
Agora estou aqui, correndo e correndo pelo parquinho, girando e brincando nesses belos e pintados coloridamente brinquedos indutores de vômito.
Essa é a única hora que consigo ficar sozinho na escola. É uma hora boa.   

O apagado




Quem viu, viu, quem não viu, não viu. e fim. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Rapadura




Orgulho é que nem a véia, rapadura também é igual ela: é doce mais num é mole. Ôh que bicha véia. Eu sou nordestino, baiano, alagoano, sergipano. Eu sou da roça, sou da seca do norte, nordeste, da peste e cabra. Eu digo oxê, ela diz oxênte, eu digo arri, ela diz arriégua. Nega namoradeira, se ilumina a luz de lamparina na janela, por que hoje num tem fogueira, mas num deixa o pai dela ver, só pensa em namorar.  A flor de mandacaru desabrocha ao alvorecer. Menina, nem é mulher, pensa que sabe o que quer. Nem sabe, falaram pra ela. É rapadura, doce, mas num é mole. Mês de junho vem ai, saia a rodar, mulé direita, é risco na ribanceira, oxê, nega! É que nem a véia, rapadura também é igual. Uma preta nordestina, um calor que queimar nos zoios, e o vento soprou e a folha caiu, que noite chegou fazendo frio. É mel com limão. Mas o toque que acaricia quando a gota do limão cai no olho denuncia. E nós num cansa, cava, afofa, liga, trabalha, lavra, eu num sabia, só sabia dançar, mas nem agradeci, depois agradeci, se um deus deu, do que adianta eu num acreditar. Tem bolo de mandioca, de milho verde, recorte na dança, aprecio o clima da roça, reuni a família. Mulé rapadura, só quebra no dente da gente, ou quebra o dente da gente, tem que saber lidar, num é iguaria do sul, é da terra, mas exporta igual uma porta, é dura. E rima Junior com junina em junho, oxênte. Rapadura é mais doce que mel, mas num é mole.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um morto





‘’Uma morte ‘’
Por Junior Nodachi


Numa manhã qualquer de um mês qualquer, a porta se abria em um edifício qualquer da rua qualquer coisa. La estava ele, deitado, com a silhueta mórbida e os olhos abertos, parados. Suas mãos estavam presas na cabeceira da cama, presas com seu cinto e com um cadarço do seu sapato Oxford 43, que ganhou de sua filha no natal do ano passado. As pernas brancas cheias de pelos e a barriga inchada e dura de tanta cerveja e churrasco nos finais de semana lhe davam um ar sedentário, preguiçoso. O relógio marcava 09:35hs, o relógio branco com pulseira de alumínio brilhava na primeiras rajadas de sol que entrava no quarto abafado do Hotel Qualquer um, de três estrelas. As cortinas vermelhas eram puxadas lentamente pela paramédica. Junto dela no quarto ainda tinham mais dois paramédicos, três policias, o gerente do hotel, uma mulher que aparenta certo desconforto, e uma montanha de curiosos e repórteres na porta do quarto 406.
O corredor que normalmente era o recanto perfeito da camareira Odete fumar seu cigarro depois de limpar o primeiro quarto do dia, estava lotado, lotado como o metrô que ela tem que pegar todo dia as seis a sete da noite. Todos falando um por cima do outro. Ela nunca vera tantas câmeras juntas em um só lugar. Pensando bem teve aquela vez no casamento de sua irmã, mas em um quarto de hotel era a primeira vez. Ao continua olhar ela se perguntava se era nesse clima e com tantos aparatos que são filmados os filmes eróticos. Filmes que por sua vez habitavam bastante o quarto do filho. No entender dela seu filho poderia facilmente se tornar um belo critico de cinema um dia.

‘’Traga-me um café! ‘’ – foi o que um senhor engravatado gritou  pra ela quando passou pela mesma no corredor em direção ao quarto. Ela nem se móvel, não era paga pra pegar café pra ninguém, não pegava pra seu marido, iria pegar pra o marido das outras. Era uma orgulhosa. Cada pessoa no corredor tinha uma versão diferente do que tinha acontecido dentro do quarto 406. Alguns falavam em suicídio, outros em assassinato, ou overdose, ou até em grande encenação. Ninguém sabia ao certo quem era aquele senhor amarrado na cama, não sabiam quem era, mas sabiam que era um senhor, e pelas roupas jogadas no chão ela percebeu que não era um senhor qualquer. Não imaginaria seu marido passando a noite em um hotel vestido daquele jeito. E quanto tempo que ela não vai a um hotel com seu marido. José andava sempre ocupado, e chegava cansado demais pra propor uma diversão longe de casa. E hotéis pra ela lembrava trabalho então tratou de tirar logo isso da cabeça.  
- Diga Edgar, do que ele morreu?
- Não sabemos ainda, n motivos.
- Pelo menos podemos descartar homicídio, ou suicídio.
- Isso é só a pericia que vai constatar. Mas eu aposto vinte reais que foi algum problema no coração.
- Apostado. Acho que foi obra da mulher.  – E assim a equipe trabalhava, trabalhava isolando o local (o ‘’perímetro’’, adoravam essa palavra), acalmando os repórteres, e tratando de descobrir quem era aquele homem.

Já tinha sua carteira, ele se chama Qualquer Coisa Soares de Pascoa. E tinha qualquer coisa como profissão, e por sinal um cargo bem tanto faz. Sabiam também que eles estava com uma prostituta, ou uma garota de programa, cada um chamava a seu modo. A equipe técnica preferia ‘’ La puta’’, por algum motivo. Ela contara que foi um trabalho bem normal, nada diferente do que ela passava as noites fazendo, quando chegou ao quarto ele estava lá pra recebê-la na porta. Já estava de roupão, e com seu bigode preto que chama bastante atenção. Confessa que espera alguém mais novo dessa vez, mas nada lhe fugia do costume das noites. Era bastante comum pra ela esse tipo, velhos, homens de meia idade, solitários, alguns jovens às vezes, mas nem era tão nova mais. Disse que fez tudo que ele pediu, ele mandava, estava pagando, é assim que as coisas são. Ela fez o serviço completo, e tudo bem sujo, assim como ele pedia. Até a hora que ele pediu para amarrar ela, que por sua vez ela não deixou. Assim ele mudou a proposta, pedindo para ser amarado, e foi ali amarado mediante ao ato sexual que ela percebeu que ele já não se mexia, nem esboçava reação, foi quando ela chamou o gerente e toda essa aglomeração começou.

A mulher continuava sentando na cadeira, e não conseguia tirar os olhos daquele corpo que ali se encontrava. Não era nem de longe mais perturbador do que metade das coisas que ela já vira nas noites. Mas a situação tinha tomado um rumo que lhe assustava. Ela era a prova viva de que sempre sobra para o lado mais fraco da corda, e esse lado era ela, isso a deixa em uma concentração acima do normal, a deixava atenta a todos os detalhes da sala. Mas o que realmente lhe incomodava era o fato daqueles repórteres sangue sujas estarem ali se aproveitando de sua desgraça, provavelmente se promovendo sobre suas ruinas.   E estavam mesmo, entre um novato no ramo, André Nunes, aluno muito aplicado, e na segunda semana de trabalho ao lado do promissor repórter do Noticias da cidade, Arnaldo Santos. Um ícone, quase um ídolo do jornalismo local de impacto.

E mediante ao encontro, a reunião de profissionais naquele quarto, lá estava ele, deitado olhando pra cima, com um sorriso ainda na cara, bem embaixo do seu bigode preto e volumoso, a bebida ainda estava no criado-mudo, e o charuto ainda estava em sua mão, entre seus dedos. E de lá a cena se emoldurava, se pintava, se eternizava no flash das câmeras de nova e velha geração. Cenas paradas. Que na manhã seguinte ganharam a capa do Noticias da cidade, com direito a duas folhas de centro falando sobre o assunto. Uma foto de seu sorriso, e uma de quadro geral. Todas embaixo de um belo trecho, um belo titulo, que até opobre bigodudo parecia se agradar bastante. Morreu, nem chegou a acordar... ‘’Morreu como todo homem deveria morrer, Morreu fudendo!’’.         
          

domingo, 23 de setembro de 2012

Poetas mortos não falam




‘’Mortos não falam’’
Por: Junior Nodachi

Não basta sermos conduzidos pela maré, levados pelo vento, ou arrastados pela estrada. Somos homem, somos poetas, cantores sambistas, somos uma sociedade de poetas mortos. Vivemos com a necessidade de entender, e desfrutar do entendido, a necessidade de enxergar as formas esculturais das coisas, de transmitir em palavras o que não conseguimos em gestos, pois somos poetas. Não poetas comuns, pois não existem poetas comuns, não pegamos e lemos, vivemos, escolhemos e transformamos. Vamos colher o dia, aproveitar o momento, é o mais concentrado teor de carpe diem que transbordas dos nossos poros e é expulso de nossa garganta cansada de tanto beber.

Somos conquistadores, nós podemos tudo, fazemos o que queremos, aproveitamos o momento, vivemos o momento, aproveitar, aproveitar, aproveitar, aproveitamos. Nós queremos esses momentos para sempre. Não como poetas, queremos como homens, como uma sociedade. Podemos, passamos, essa é a ideia de que iremos realizar todos os seus desejos, todos os sonhos. Fazemos o impossível possível, andamos na corda banda, no limite da vida, vivemos morrendo a cada dia a cada passo, andamos na calçada ou na rua. Vamos ama-la como única, vamos lhe levar para o caminho do mal, para o caminha do momento, faremos você escrever seu caminho. Mas não é só escrever, é ler o que esta escrito até fixar, até transcender o papel e se tornar você. Façamos nosso próprio caminho, sozinhos ou não. De mãos dadas com nossas conquistadas ou não. Não sejam tímidas, venham, venham nos conquistar, venham aproveitar seus momentos com nós. Esqueça os outros, nós seremos os outros e nós mesmos. Seremos os olhos, a boca, as mãos, venha dormir comigo, venha correr comigo, venham ler e escrever seu caminho. Vamos surpreender o mundo se vocês quiserem. Vamos aproveitar, aproveitar esse momento, esse momento. Carpe diem minha querida.

O desejo da desejada



‘’Desejo’’
Por: Junior Nodachi


Será que era só desejo? O que era essa inocência que ela relatava nos seus cadernos? Ela queria caminhar mais um pouco, caminhava pra afastar o desejo. Mas que desejo? É de sexo que estamos falando? Talvez. Ela via como algo mais, sexo por sexo ela já tinha feito, não havia motivo pra tal reflexão em uma caminha noturna.
Ela queria a confiança dele tocando ela, ela queria ser usada, ser manuseada como um objeto. Sem romantismo, sem passageiros sentimentos que se desfazem na manhã seguinte. Ela já era tratada como uma mulher, mesmo não agindo como uma. Ela já era tratada como uma mulher, mas queria mais, queria ser uma puta. Sim, uma puta. Queria ser usada e largada em algum beco daquela rua escura. E agora se perguntava se era só desejo. E se era só desejo, se perguntava, por que não se entregava a esse desejo? Ela estava confusa queria e não queria ser usada. A caminhada acabava e ela voltava. Voltava pra casa, voltava pro quarto do bordel que ela estava presa. Para ser usada e largada, como o guardanapo que ela usava pra se limpar. Será que era só desejo?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Um romance.


                                                      (Não achei uma foto legal)


‘’Um tanto maior que o normal’’
Por: Junior Nodachi


Um pedaço.


É um tanto maior que o normal, como o próprio titulo já diz. Não que eu faça histórias pequenas, não que eu me importe de mudar um pouco meu formato, não temos leitores. Por isso hoje Tudo começa normal. Uma história normal. Parar atrair o leitor em geral, devemos titular nossa história de romance compacto, e não simplesmente de texto. Eu gosto de textos, são cômodos, simples. Mas hoje precisamos de algo com mais corpo, com um fundamento, com impacto. Isso pode não passar de um simples desafio de uma mente cansada. Nova, banal, mas ainda uma mente cansada.
- Vamos crescer, meu bem. Mas sem deixar de sermos crianças. 
Ele fala vagamente, ela mal consegue escutar. Esta em seus braços, mas diferente do que parece, do que é comum. Lá fora não está frio. Não esta nevando, nem ao menos chovendo. Eles não viverem uma história de dificuldades para estarem juntos. Não existe um motivo, não existe razão, intervenção do universo, ou algo místico que os prendam um ao outro. Não são bonitos como os amantes dos livros consagrados, ou dos contos infantis. Arrisco a dizer que nem ao se sentem tão atraídos um com o outro de maneira forte e vivida como os velhinhos de família grande que vagam nos parques domingo atarde.
Todo começa com eles se beijando. Como qualquer romance deve começar. Algo que prenda sua atenção, que faça você imaginar. O longo apertar da sua mão na mão dela, um apertar forte, intimidador, protetor. Por algum motivo desconhecido desse pobre narrador que recorda a cena romântica, ela fecha os olhos. Ele conduz a sua mão para o pescoço dela, olha para seus olhos fechados e a puxa pra si. O movimento leva horas, dias, meses, uma eternidade. Visto de longe parecem duas estatuas. Duas molduras frias de bronze ou mármore. Os olhos dele vão se fechando levemente, junto com os braços dela que enlaçam o tronco dele. Mas um ato de proteção. Uma notória medida de filhos criados por mães.

‘’Somos uma geração de homens criados por mulheres. ’’ Uma frase conhecida, até onde eu me lembro. Uma frase verdadeira até onde me recordo. Alimentam-nos, nos criam, nos protegem. São assim nossas mulheres. São assim os romances. Nós não buscamos algo que nos complete, buscamos algo que nos foi dado e tirado, por isso nós crescemos. E por isso não deixamos de sermos crianças.

A mão dela vai abrindo caminho entre seus corpos, levemente, cuidadosamente. Vai abrindo espaço, fazendo seu caminho caminhos pelas vielas da carne, no mais conhecido le corps de l'être aimé. E finalmente seus dedos têm onde descansar. Repousam na face cansada dele. Repousam, mas não param totalmente. Não conseguem, estão vivos, estão em busca da forma mais bruta de carinho, da forma mais bruta de bem estar, de prazer. E lá eles continuam, por anos, por décadas, por centenas de anos.

Pessoas continuam a andar entres eles, mas esse não é um fato importante que mereça a atenção de um narrador enquanto um ato de dimensões bem maiores acontece perante suas lembranças. Vamos dizer que o cenário some, puff! Que as pessoas sumiram, que os pássaros congelaram ou que nem existiram. Vamos direto ao que todos buscam no romance. Ao que eu estou disposto a contar.

Dizem que existe uma linha tênue que separa o amor dos outros sentimentos. Dizem que o amor não passa de uma reação do cérebro. Logo esse amor, o objeto de trabalho de incontáveis poetas, filósofos e escritores em geral, o amor, um dos sentimentos mais famosos entre os seres humanos, é posto em dúvida aqui. Todos nós sabemos que o amor não passa do seu desejo sexual potencializado pela dopamina, um neurohormônio produzido pelo hipotálamo, que provoca a liberação de testosterona, hormônio que desperta o desejo sexual. O amor é uma sensação de união que é reforçada pela presença de ocitocina, que é sintetizada no hipotálamo e secretada no sangue pela pituitária. Em mulheres, a ocitocina estimula as contrações do parto, lactação e amor maternal. Tanto em homens quanto em mulheres está altamente durante o sexo e explode durante o orgasmo, tendo influencia na união do casal.  

Alguém vai deixar de amar depois dessa explicação? Eu realmente espero que não. Eu sou um narrador, mas gosto de ficar junto também. Enfim, continuando. Eles finalmente se beijam. Tudo começa com eles se beijando, como qualquer romance.


Dois pedaços.


Agora pulamos para uma parte onde ele morreu. Sim, nosso belo e romântico protagonista está morto, mortinho da Silva. Daqui eu consigo ver claramente, os destroços retorcidos do Dodge Charger rt 1970, comprado ilegalmente na mão de um estrangeiro qualquer por uma pechincha, segundo uma amigo dele. Ele adorava finalizar os sábados passando cera na lataria amassada gentilmente por ela quando manobrava de forma angelical em direção à garagem de sua casa. Ele adora procurar moedas nos enormes bancos de couro, tirados de um Chevy Impala 1965, e comprados pela metade do preço.  Era um ótimo lugar pra passar a anoite quando ela o botava para fora de casa.

Agora estava lá, todo aquele couro com espuma, e o recosto de bolinhas de madeira feito por ela, à mão. Estava lá, queimando e queimando. Um fogo belo, meio vermelho, meio azul. Agora ele se encontra aqui parado ao meu lado, ouvindo atentamente eu narrar esse pequeno pedacinho da sua morte.
Ele olha para mim... Continua olhando e nada fala. Melhor eu me apresentar, não me lembrava dele ser tímido. As pessoas podem mudar quando morrem, pelo visto.

- Muito prazer meu bom homem, eu sou o Narrador.
- Narrador? – Ele olhava com aqueles olhos de peixe morto, típicos de um homem morto.
- Sim, sou o narrador da vida, e hoje eu serei seu narrador.
- Como assim narrador?- Realmente eu não lembrava dele ser um cara tão lerdo em entender os fatos. É a morte, ela faz isso.
- Deixamos isso pra lá. Como você se chama?
- Eu... Eu... Eu me chamo... Eu não lembro como me chamo.
- Óh, um horrível fato, todos devemos ter nossos nomes quando morremos. É a única hora que precisamos deles, precisamos ser lembrados. Que tal olhar em sua carteira. Você tem uma carteira ai, não tem?
- Sim, tenho. Isso é estranho.
- Não discuta comigo, apenas olhe seu nome, para que possamos voltar a narrar sua morte.
- Esta aqui, Ângelo, chamo-me Ângelo.
- Lindo nome Ângelo, chamo-me Narrador, como disse antes, é um prazer imenso lhe conhecer. Agora pode ficar sentando ai se quiser, tenho um romance para narrar.
-Tudo bem... Eu acho.

Ahh, que pena. Perdi a chegada dos bombeiros e policias. Uma falta eterna par minha carreira de narrador.
A pericia constata que Ângelo dormiu ao volante, devido a algum motivo que será descoberto futuramente quando seu corpo for examinado. Agora a policia segue em um pequeno comboio de dois carros. As luzes embebedam os outros motoristas que seguem em sentido contrario. Um barulho de sirenes e chuva entra pelas janelas abertas dos apartamentos que ficam de frente para a ponte. Pelo visto os policias estão calmos, ou cuidadosos por causa da pista molhada. Uma situação plausível, visto que acabaram de informar a Ela que seu amado tinha falecido. Assim como eu, assim como você, esses policiais também devem ter suas famílias, seus problemas, seus romances. Seria imprudente arriscar tudo depois do exemplo que nosso amigo Ângelo deu. 


Três pedaços.

  A dor psicológica de um término é tão real como uma dor física.
A dor eterna de um término pode ser incomparável.
Ela estava encolhida, sentada no seu sofá da lã de alguma grife famosa, comprado pela sua mãe. Por que por ela, qualquer um estava bom. Ela era simples, mas de muitos detalhes, animaizinhos na estante, a cortina de miçanga, a bolsa de crochê comprada no mercado de artesanato. As panelinhas de barro com pinturas de um fazendeiro e sua esposa ficavam em cima da mesa de centro em forma de yin yang. 

 Ela chorava. Expelia pelos olhos suas dores, seus sofrimentos, suas angustias, seus sonhos. Lamentava e lamentava. Ela achava que Ângelo era o amor da sua vida, pelo menos o ultimo amor da sua vida. Antes ela teve vários últimos amores. O amigo do primário, o lindo alto do final da rua, a paixão do ônibus, o jogador de vôlei, o musico. Ahh, os músicos, foram seis ou sete. O trabalhador serio, o universitário, o medico e finalmente o Ângelo, que por sua vez não tinha nenhum adjetivo.

Ela chorava. Chorava por que depois deito tempo no carinho desordeiro dele, ela simplesmente deixa de ser a criança que prometera pra ele se tornara mulher. Ela ainda recorda dos olhos dele, olhos pretos como a camisa que vestia. Olhos tristes enquanto ela dizia que ele não era suficiente. Assim ela lembrava. Na verdade, ela simplesmente o ignorava, o deixava de lado, o deixa no escanteio. Ele era sem adjetivo, o que ele iria dizer pra mãe, para o pai, pra família. Ela dizia sempre, ‘’foda-se o que eles acham’’, mas por sua vez, sempre queria a opinião deles. E Ângelo era um homem sem adjetivos. 

Ela chorava. Chorava por não ter tido o filho que ele tanto queira. Filha na verdade, ele sempre dizia que não poderia ser mais responsável por um homem, assim como ele cuidara dos seus três irmãos. Ele queria outra dela na sua vida, uma copia menor, que ia crescer como muda de planta, como uma arvore na primavera. Sempre elogiava partes dela que ninguém tinha elogiado, queria ser lembrado, queria um adjetivo que não tinha.

Ela chorava. Chorava por nunca ter feito nada com ele, nunca ter matado ninguém com ele, nunca ter saído no carro dele. Ela achava o carro velho e bolorento. Agora um carro destruído e contorcido. Até o carro tinha adjetivos. Queria ter corrido com ele de mão dada, praticado seu esporte, ter bebido, mas bebido muito. Ele costumava chegar fedendo a bebida, de voz rouca, dizendo a amava. E ela respondia: ‘’ Você é legalzinho, mas não quando está bêbado’’. Queria ter conhecido a família dele inteira, queria ter roubado seu coração e botado em um vidro, pra guardar pra sempre, queria ter levado ele junto nas festas dos amigos, levar ele até na casa da tia pra fazer bordado. Ela o queria de volta.

Ela chorava. Assim foi um dia, uma semana, um mês, e nada. Chorava e chorava. Não comia, não reagia, não lutava. Se ele estivesse lá, logo mandaria ela levantar e ir ao parque mais ele, pra ela conhecer gente nova, pra ela se drogar, se pintar, se matar. Fazer qualquer coisa, menos ficar parada.  A dor psicológica de um término é tão real como uma dor física. E assim ela sentia, sentia e sentia. Era dor na perna, na barriga, dor no braço, na cabeça, o coração não parava, ela pedia que parasse, ela chorava e chorava.

Ela chorava. Mas agora não mais do mesma forma, não mais com lagrimas, não mais como podia. Todos já haviam ido embora, ela estava sozinha, e estava com medo. Tentava não pensar nele, mas a cada coisa que fazia lhe remetia o que ele fazia. Isso ainda a maltratava, mas ainda assim ela saia. Começou a ir ao mercado, arrumar a casa. De tempos em tempos até beber, bebia.

Ela chorava. E parecia ter envelhecido uns 10 anos. Sua pele estava clara como a neve que nunca vira, a não ser no cinema é claro. Branca e sem manchas, a não suas manchas. E como ele adorava cada mancha. Passava horas e horas alisando cada uma, olhando cada uma, conhecia todas, e apelidava todas. E as horas pareciam dias. As visitas aumentaram, os pais vinham, as tias, as primas. As amigas estavam sempre por lá, mas a maioria tinha casado. Ai como queria ter casado, ter tido o sobrenome estranho dele junto ao seu nome nobre. Como queria ter corrido nos becos escuros, subidos nos muros e ficado acordada até o raiar do dia.

Ela chorava. E voltou a chorar ainda mais quando via o Dodge Charger, que o homem do fim da rua vendia.


Quatro pedaços.  


- Anime-se! Temos que sair e ver o mundo.
E assim ela levantou do sofá de lã que passava as noites com ele e fio com a amiga. Foram para um bar, depois para outro e para outro. Toda noite era um diferente. Ela já tinha voltado ao trabalho, quando chegava lá estava sua amiga, em sua sala. Tinha dado a chave a ela pra alguma emergência, ou para o caso de esquecer a sua em algum lugar. Andava muito esquecida.

Nessa noite iram em uma festa agitada, com banda e pessoas alegres, ou em seu vago conceito de alegria, dançando e dançando. Ela estava belíssima, diga-se de passagem.  Meia-calça preta, uma saia de um bordado qualquer, uma blusa branca, um sutiã de renda, que dava pra se ver pelo decote. Eu não entendo muito de roupa de mulher. Mas para um simples narrador, ela estava magnifica.
- Não me olhe assim Ângelo, sabes que amo outra narradora. Mas meus olhos conseguem enxergar tal beleza ainda. Somos amigos Ângelo.
Algo de diferente aconteceu nessa noite. Ela acordou em um lugar estranho, em uma cama estranha. E o principal, com um cara estranho. Ele é bem apessoado, forte, tatuado, cabelo liso e um ar de presunção, mas ainda dorme. Dorme como Ângelo. Sinto-me feliz por ele não ter visto a noite dela, talvez por mim, talvez por ele. Não sei por onde anda a minha narradora que nem é minha, pode esta em qualquer história, mas a vida e a morte são assim.
Ela se sente culpada. Tão amedrontada, tão amarga... 
- Por que devo perceber o quão desgraçada eu sou? 

Ela volta pra casa, volta para o sofá, deita nos braços da amiga que dormiu por lá e dorme.  Na manhã seguinte ela viaja. Um dia, uma semana, um mês, um ano, uma década. Cada dia ela vai esquecendo ainda mais Ângelo, e cada dia Ângelo vai esquecendo um pouco mais dela. Viver no branco entre cada linha de um livro não é nada fácil no começo, não até você esquecer completamente de tudo que você tinha. Ângelo agora tenta aprender um pouco de narração comigo, mas confesso que ele não tem futuro nesse lado. Com exceção de uma destreza infalível para erros sintáticos, o que me ajuda me irrita de horas em horas.  

Ela volta pra sua casa. Nem acredita que tanto tempo se passou. Sua amiga casada com um afilha linda do lado. Olhos grandes como o dela, os outros traços devem ser do pai. Com o tempo reparo que ela se casou com o homem do final da rua. O homem que vendia Dodge Charger. Ela pergunta a ele se ainda tem o carro, e ele responde positivamente, dizendo que nunca conseguiu vender a lata velha.
- Eu estou interessada nele.
- Jura? Não é bem um carro feminino, e tem vários problemas, e sem falar que é bastante pesado.
- Não me importo, com o estado, só me venda.

Na manhã seguinte ele bate em sua porta, bem cedinho. Ela acorda do sofá, caminha até a porta e ela esta lá, com a filha no ombro e com um sorriso imenso.
- A senhora é dona de um Dodge Charger rt 1969 laranja madeira envelhecida com teto branco. Rodas originais aro quinze, vidros transparentes, motor semi-original sucateado, bancos em couro claro, e uma linda flor feita por essa criaturinha aqui com uma pedra na porta lateral esquerda.
- Obrigado.
- Não, eu que agradeço.
- Não, digo, a ela. Adoro flores.



Cinco pedaços (pedaço final)



Eu preciso finalizar esse romance, mas eu estou cansadíssimo.
- Ângelo, não quer termina pra mim?
- Você quer que eu narre o final de tudo?
- Sim.
- O que eu tenho a perder.
- A vida é que não é.
- Seu otário.

E então o narrador se senta entre uma linha e outra, bota as mãos atrás da cabeça e me observa. Eu não tenho muito que dizer, eu não vejo as coisas que ele estava vendo, pra mim está tudo branco. Ahh, agora vejo um carro, um carro parecido com o meu, mas esse é bem mais novo que o meu. Agora desce uma mulher de dentro dele.
- Tenho que descrever a mulher?
- Tem sim.
- Ah, tá.

É mulher de meia idade, linda pra idade dela, usa um tênis velho e o cabelo preso pra trás... Usa uma camisa preta de uma banda que eu desconheço e uma bolsa de crochê para o lado... Ela vem caminhando até min, pega minha mão, bota minha mão esquerda no seu rosto, e a direita em sua cintura. Agora fica olhando nos meus olhos enquanto eu narro, ela sorri um pouco, é realmente um sorriso lindo.
- Sentiu minha falta? – Ela diz de forma sarcástica balançando rapidamente a cabeça negativamente, mas ainda sorrindo.
- Sim. - Eu, Ângelo, o substituído do narrador preguiçoso digo.
- E agora? - Ela me pergunta.
- Eu não sei, vou perguntar pra meu narrador – Eu respondo pra ela.
Quando para o narrado ele esta fechando sua pasta e botando as paginas em branco dentro da bolsa de couro dele, com um adesivo do lado escrito: ‘’vai Tigers, rumo ao titulo’’.
- E agora narrador, o que nós faremos? – Eu pergunto para ele. E ele sem olhar pra nós me responde.
- Eu não faço a mínima ideia, se beijem e tal. – ele diz, e eu concordo. Olho pra ela e...

Tudo começa com eles se beijando, como qualquer romance. O primeiro que de todos. Aquele romance que começa sentado, pertinho um do outro, no sofá de lã. Durante a noite inteira. Mas isso não foi um romance, foi um piscar de olhos, foi um segundo, um minuto, uma hora, um dia...




Acabou.  Para gente.


Nota interessante ao leitor: Enquanto eu escrevia o ‘’terceiro pedaço’’, e me perdia nos detalhezinhos, imaginando cada coisinha, cada pedacinho de cena, cada quadro, minha comida que estava esquentando no forno, queimou, e eu fiquei com fome. Mas mesmo enjoado, comi biscoitos. E perdi meu peixe. Adoro peixe.   

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Mais uma janela




‘’Mais uma janela’’
Por: Junior Nodachi

Agora eu uso óculos, e enxergo embaçado, da pra ver o xadrez da parada e a letra corrida, velocista e arretada. Eu poderia limpar mais do que eu já limpo, mas a cada baforada ele embaça. Não que eu esteja reclamando, eu adoro essas baforadas. Todos sabem que a hora da baforada é uma hora sagrada.   

Quando você quer ver uma coisa diferente, você pode ver alguma coisa diferente. Pra que se limitar ao sonho, ao acontecimento inesperado? Eu gosto de transformar o que foi me dado, nesse caso enxergado. 
Horas posso ser um piloto de Caça, hora um motoqueiro apressado, um atirador de elite, um cientista, um advogado, um velho carrancudo, um cyborg quebrado, ou então ser só eu de óculos.

Agora eu peguei o ônibus certo, ajudou a não ficar embaçado. Sim, eu esperava mais. Um bocadinho e tal. Uma visão além do alcance, detalhes contornados, milhas de pixels enquadrados, uma mira. Mas estou ótimo, eu estou gato.

Eu gosto é quando embaça, fica tudo turvado, da pra fazer nuvem no céu, da pra fingir ser drogado. Ainda não me acostumei, ainda acho estranho, mas o que num é estranho hoje em dia? E se as pessoas mudam, coisa que eu não acredito, vamos mudar de novo, podemos ser quem nós quisermos. Hoje por exemplo eu sou um escrito falido de media idade, solitário, cheio de problemas de coluna, viciado em cigarro, e de sorriso bem humorado. Ando de chinelo e roupão o dia todo pela casa, litros de café tomados e sonos de horas e horas sonhados, pra digitar nem olho para o teclado. E sim, de meia idade, mas antenado, folha de papel é passado, sem falar que com óculos fica tudo borrado. E da pra ver que o texto está quase rimado. Como num cordelzinho, num poema, ou num verso cantado. 

Sorte no Jogo, azar no amor.




‘’Sorte no Jogo, azar no amor. Ou seria ao contrario?’’
Por: Junior Nodachi


Você pega um ás de espadas e um seis de ouro.  Você olha nos olhos do adversário e se pergunta se é amor ou jogo. Pra mim isso nunca deu certo, sempre foi jogo, nem sempre jogado, uma estratégia, é sim, tudo pensado, calculado, computado, é uma função sem resposta. É uma bosta.

Sorte? Eu nunca tive sorte, nunca pude me dar ao luxo de acreditar no destino, no universo, no pressentimento da vovó nem no choro do menino amarelo. Você conta as possibilidades, a probabilidade, as variáveis, se no final quiser calcular a sorte, calcule. Pode ser desconfiança, preocupação, mas pra quem nunca ganhou, não passa de gana.

Outra carta sai. Você olha, ré-olha, tré-olha. O cara da direita pisca o olho esquerdo, o da esquerda tem um tremor na mão, tremor involuntário, tremor do musculo, que ele nem sabe que tem. A aposta é feita, o sorriso ninguém tem, e se tiver é falso, sempre é falso, se acreditar você esta condenado.

A cor do cabelo dela é preto. Na verdade eu não reparei direito, é algo como preto, então é preto. Seus olhos? Pretos também. A cor da sua pele? Acho que é marrom, eu também sou meio marrom. Ela falava algo que eu não lembro. Dizia que eu não deveria acreditar em algo, e que eu deveria acreditar em outra coisa, que isso sim era verdade. Na verdade, eu nem prestei atenção. É melhor não prestar, pois eu tenho sorte é no jogo.

Aposto metade do meu dinheiro. Todos ainda me olham de forma desconfiada, um sorriso eu vejo, é meu sinal tão esperado, é calculado, cada passo dado, cada movimento estralado, cada engasgado com o conhaque quente, cada lábio molhado. Seu dedo coçou ou você esta mentindo? Isso vai depender da sua jogada. A aposta é coberta e outra carta lançada. A garganta gela, a mão é gelada, da pra sentir daqui, o frio emana pelas ventas, pelas fissuras, pelos poros, e tudo fica congela.

Ela me falou que eu tenho azar no amor e eu disse pra ela que tinha azar no jogo. Ela disse que não fazia sentido e me mandou embora, mas eu não fui embora, eu fiquei, eu sempre fico, pelo menos eu acho que fiquei. Eu até sairia, mas não sei a mão jogada, ela esconde as cartas, ela não treme, não pisca, não se mexe, elas esta morta. A única coisa viva é a palavra, a palavra fria da aposta pesada.

Aposto todo meu dinheiro. Essa foi a ultima carta. Todos olham de lado, um até desiste e assim o montante se engrandece. É muito olhar e pouca jogada, se você chegou até aqui, pra que desistir, faça, vá, avance, jogue, aposte, ela não aposta, mas você aposta, é um enganador nato, engane o destino, o passado, lute pela mesa, eu sou um mentiroso, um detalhista. Sim os detalhes fazem diferença. Mas como é o nome dela mesmo? Maria, talvez, ou Joana? Quem se importa, ela não é minhas cartas, ela não é nem minha. É alta ou baixa? A aposta eu sei que é alta, alta e arriscada. Eu lembro de um cheiro de fumaça, ela fuma? Ou é essa mesa molhada? Molhada e impregnada pelo cheiro dos charutos ricos e piratas.

As cartas são mostradas e as fichas são puxadas, meu dinheiro vai embora diante dos meus olhos, até meu relógio de ouro eu não irei levar pra casa. Maldito sorriso que me engana de novo. Casa... Eu tinha uma casa, não era minha, era dela, mas era boa, não como ela. Eu poderia voltar, bater em sua porta, mas eu não lembro onde ela mora, não reparei, só reparei nas suas costas, ela mostrava a alça do sutiã quando ia embora. Embora. Embora. Embora. E eu fiz o que? Eu apostei? Eu corri o risco? Eu apostei tudo? Não, que nada, pois só tenho sorte é no jogo.


Pode entrar




‘’Pode entrar’’
Por: Junior Nodachi


Sempre vão entrando de macinho, alguns com olhos tristes, outros não, alguns com passadas rápidas e olhadas frenéticas, e outros não. Assim eles vão deslizando, em movimentos graciosos pela chaparia de metal do ônibus, deslizam feito bailarinos em um palco de madeira, deslizam feito um ator em um teatro do interior, deslizando e vão deslizando, envolvendo a plateia. Muitos têm histórias, muitos contam histórias, muitos têm dores, muitos contam as dores, outros não fazem nada. Mas uma coisa eles tem em comum, todos deslizam até o fim do ônibus.

Você vê aqueles olhinhos apertados e logo fica com pena da pobre pessoa, fica logo revoltado pelo drogado, mas sempre sobem, sempre sobem. Poderiam estar matando, roubando, mas estão morrendo, morrendo, ou se matando, ou até nos roubando, que não seja diretamente, intencionalmente, que não seja nosso dinheiro em si, mas sempre estão levando algo de nós. Alguns levam nossa atenção, outros nossos trocados, alguns levam nossa alegria, outros levam um punhado de moedas, um punhado. Alguns levam a falsa alegria de uma vida boa e prospera, a paz, a magia, o amor, o beijo da guria, o sono da preguiça da tarde. Eles sempre levam algo.

O discurso começa sempre do mesmo jeito: ‘’eu fui, eu era, eu sou, eu podia, eu estaria, por favor, uma ajuda, uma ajuda, ajuda, socorro, eu pedia’’. Eu quero acordar, e ver que tem alguém do meu lado, eu quero dormi, e dormi bastante, isso me ilude pra caralho, mas como vou cochilar e sonhar? Se eles deslizam e deslizam devagar, e sempre levam alguma coisa. E você se sente sujo, egoísta, um ser incompleto, um ser indigno de viver entre os outros, é Darwin, é a lei, é a vida, e assim tua pequena, bem pequena alegria diminui, depois se encolhe, e ainda se aperta até sumir do alcance de seus olhos. Ai você lembra, lembra-se das coisas boas de novo, da alegria do dia, da magia e do beijo da guria de novo. Por quê? Porque eles deslizaram pra outro ônibus, mas eles sempre levam alguma coisa e sempre deixam alguma coisa. O discurso começa sempre do mesmo jeito: ‘’eu fui, eu era, eu sou, eu podia, eu estaria, por favor, uma ajuda, uma ajuda, ajuda, socorro, eu pedia’’.

domingo, 10 de junho de 2012

Primeira pessoa do singular



Hoje ele acordou meio como sempre, meio como novo, meio com sono mesmo... Ele não, eu.
Tá, modelo antigo.
Hoje eu acordei meio como sempre, meio como um novo, meio com um sono da porra mesmo. E o que eu posso fazer? Quando se dorme tarde se acorda cedo, é um reverso inverso.
Sabe quando a gente olha no espelho de manhã e vê aquele cabelo pra cima, os olhinhos bem apertados, a boca seca, as bochechas inchadas ainda pelo travesseiro duro? Eu sei também, é o máximo. Minha mão rela na barba igual a do Wolverine. Sim, ela é igual a do Wolverine, e eu não vou tirar! Mas não nego que sempre penso em tirar tudo, mas já tá quase na hora deu ir aula, ia da muito trabalho, então deixa assim.
A calça é azul pra variar, ontem foi cinza, mas sujou de lama, não sei de onde veio lama nesse sol infernal que faz em Salvador. Enquanto isso no jornal ainda passa revolta, desastre, mortes e gols do Neto Baiano. O tênis ainda está macio, e é como ele, esse velho e perto All Star preto da estrelinha que vai o caminho todo fazendo ‘’chilep, chilep’’ pelas ladeiras.
Como sempre ao passar pela ponte, vindo da Cardeal, olho o relógio e o termômetro que fica lá embaixo, e penso na miséria que é tá calça nessa bagaceira de 32°C. Pelo menos atrasado eu não estou, ainda faltam três horas para aula. O que me confortar é saber que ao chegar eu vou sentar na minha sala e ligar o ar condicionado no máximo. Na verdade a sala nem é minha, tenho que esperar mais uns anos pelo usucapião, ai sim, serei dono da sala 120 do primeiro andar do paf I, ali sim é meu lugar, a 121 também em agrada bastante, mas não vem ao caso. E lá eu fico, hora estudando, hora jogando poker com Fred Mercury, quando ele aparece.
E de lá eu subo, claro que antes tenho que encher a garrafa de água. Sim, eu sou viciado em água, é uma droga desgraçada. Ser for uma terça-feira ou quinta, tenho que ir a química comprar amendoim, se não o sono vem, e eu durmo na aula depois do almoço.
O almoço é uma maravilha, 2,50$, achei bem em conta, a fila eu sempre que posso corto, o povo da Info é gente boa, ou então é algum brother que já cortou mais na frente. Mas o grande problema é que esse restaurante tem muita gente, e é quente, o nosso tá em reforma, eu adorava ele, a Tia me dava mais comida lá. Opa! Hoje tem pudim!
Depois do almoço, dependendo do dia, deitar na grama é uma boa, ou voltar pra 120 jogar poker, ou ir ao laboratório ficar na internet.  Estuda que é bom, nada!
E assim aula começa e aula acaba, sobe andar, desce andar. Opa! A guria do corredor, ai é papo garantido, dizem que farmácia é o canal. O papo foi curto dessa vez, eu não tô achando muita graça nas coisas nos últimos tempos não, por mais que eu procure, corra atrás, conheço gente, está tudo muito chato, mano.
E assim dá a hora de voltar pra casa, espero meus companheiros de subida, mas só vamos até a escada de arquitetura, de lá a diante é um pro norte outro pro sul. Cara e pensar que eu fui roubado aqui na bosta dessa saída. Que se foda, não é a primeira vez e o celular de Nadson era difícil de mexer.
Comprar o pão é de lei, igual a um pai de família, e hoje tem que comprar leite também. O primeiro portão tá uma merda, vou ver se boto um óleo nesse cadeado depois, ou espero pelos vizinhos botar, vou pensar. O cara que divide a casa comigo, deixa a casa toda escura, se tranca no quarto com um fone e vive lá, no twitter, só pode. Nestante levanta falando pra nós ir comprar alguma coisa.
E num é que foi dito e certo, aqui tou eu descendo pra Vasco, pra ir no extra comprar o que comer. No Extra é o Extra, mercado e tal, de bom só cerveja. Ahh, na primeira semana teve um fato legal, vou contar: Estava eu nos corredores da vida, conheci uma guria, papo vai papo vem, marcamos de sair, quando ela perguntou pra onde, eu responde de bate-pronto, ‘’vamos pro Extra, ora’’, pensando bem a história escrita nem é tão engraçada, mas na hora foi. Ai Alan deu uma tapa nas costas dizendo: - Vai char pro Extra é? Chama pro shopping rapaz, pro cinema.  -  Eu acabei nem chamando pra lugar nenhum, não quer ir pro Extra, não merece minha atenção, o Extra é o canal, rapaz.
Massa garrafinha nova, e eu vô beber pra esquecer meus problemas ‘’bebe negão’’. São agora vinte e três garrafas de vinte tipos diferentes de cerveja, eu até tenho uma conta no Brejas.com.
A pior parte de chegar é ir limpar o banheiro, completamente sujo e cheio de cabelo, quer dizer, cabelo é o que não fata nessa casa, meu colega de casa, tem uma arvore na cabeça. Cada vento que bate, voa cabelo pra tudo quanto é lado.
Sim, agora eu vou pro Facebook. Cerveja, salgadinho, internet, rapaz, nada mal pra começar a noite. Eu tô particularmente em estagio de pré-vicio nessa merda, mas vou da um tempo essa semana que tenho que estudar G.A., e G.A. é barril. Mas tá normal, mal consigo ver o que o povo posta, a velocidade da timerline tá muito rápida novamente, bando de viciado do caralho. Eu até casei, quer dizer, vou casar, fiz o pedido pelo chat, típico de um aluno de C.C. sem vida. (bando de cafajeste), Relaxem que os chamarei pra festa. E já tá é tarde novamente e nem estudei L.P., na moral eu tô um vagal.
E aqui tou eu, escrevendo o pôster da semana.  (acabei de ter uma ideia boa, no próximo pôster eu posto). Enfim, fim.
Away!   

sábado, 9 de junho de 2012

Piriguete




Piri, piri, piri, piriguete.
Eu quero ser é uma piriguete. Tá na moda, é sexy, rasteiro.
Não sei se fico com o Carlos ou o João, Antônio, Ricardo ou Mario. Todos eles são um ‘’tudo’’, um faz judô, o outro tem três motos, um vai ser Dr. Advogado o outro é meio ladrão. Ai que tesão, ai que tesão! Escolho shortinho ou vou de minissaia? Ai que indecisão! Minha amiga nem me ajuda, só saber dizer palavras repetidas, por que deve ser burra, eu falo, falo e ela só diz: ‘’ Ai amiga, que chato isso. ’’

Ai amiga, que chato isso. Mas não liga não, logo passa e ele volta, olha minha unha enquanto isso. Fiz lá na Ivete. Fiz unha, cabelo, massagem e depilação, tou zerada, seminova, uma capeta safada! Devassa!
Devassa! Além da cerveja do tipo pilsen, apelidada de Devassa Loura existem também a Devassa Ruiva, cervaja avermelhada que se aproxima do estilo das pale ale. A Devassa Negra, uma dark ale escura. A Devassa Índia, uma espécie de pale ale britânica e a Devassa Sarará um chope tipo Weiss.

Weiss era apelido de Wesley, sabe como é essa coisa de mãe, não aguenta ver um nome com ‘’w’’ ou ‘’y’’ que já quer botar na criança. Mas não tenho nada do que reclamar não, já peguei muita mulher por causa dele. A ultima mesmo foi a Jennifer, ahh, Jennifer, safada! Me deu uma surra, se é que você me entende. Cansado eu até tô, trabalhei a semana toda, mas foi pagamento hoje e vou investir a grana do mês na Jennifer, soube que até vai rolar uma amiga, até pensei em um amigo, mas dividir não é minha praia. Êpa! Olha elas ai, com essas pernas de fora, piri, piri, piri, piriguete.

Amigo é pra essas coisas.




- Velho, larga de ser ciumento antes que ela largue você por ser pau no cu.
- Mas ela tava saindo com ele de novo, eu vi, liguei pra ela e ela disse que ia sair com ele!
- Cara, larga a mão de ser retardado, se ela tá com você, ela tá com você.
- Mas eu num confio naquele cara, ele tá querendo pegar ela.
- Óh véi, faz o que tu queres, pois é tudo da lei... da lei... Muhahaha!
- Você é todo assim, só levar na brincadeira, queria ver você no meu lugar!
- E você sabe que se eu não posso tá no seu lugar?
- Mas tu nem tá namorando, e a que estava te rodeando tu fez alguma coisa pra ela sumir.
- E dai?
- Tu vai acabar é sozinho se ficar fazendo isso.
- Tem nada não, meus planos vão além, e você sabe disso.
- Cara, você não andava de mão dada com ela, não chamava ela pra sair, não ia a casa dela, nem sentava perto dela na sala. Se eu fosse ela eu iria embora também.
- E se eu fosse sua namorada... Muhahaha, eu num sei, eu num seria. Você é muito chato.
- Ahh, legal é fingi pra ela que tá estudando enquanto joga Assassin’s Creed, né?
- Assassin’s Creed é de fuder, lave a boca pra falar da porra do meu jogo! A conversa não era sobre o fato de você ser ciumento com a porra da Ruiva, véi!?
- Mas isso não muda nada.
- Você pede pras pessoas te mandarem sms pra dizer onde ela tá, espera ele na saída do restaurante, na saída da aula, quer conhecer todos os amigos, aonde vai tem que levar ela e ela tem que te levar. Esse celular não para de tocar, e você quer que ela ainda não reclame? Na moral, você é pau no cu.
- Pau no cu é você!
- Eu sou pau no cu sim, tenho a mulher que eu amo, moro num apartamento maneiro, tenho carro, tenho mais de 1,80, almoço em biologia, sou branco, e tenho ciúmes da desgraça da minha namorada.
- La vem ele com esse sarcasmos do House. ’’ Ui, eu sou o House, sou mal humorado’’, tira esse óculos preto do olho rapaz, Susasusasusasua.
- MUAHAHAHHAHAHA
- Hsuahsuhasuhaus
- Eu vô é embora, vê se sai de cima dessa arvore que ela já passou.
- Já passou? Você viu foi?
- Passou antes de você chegar, eu tava sentado aqui na grama.
- Pohha e você nem me fala nada!?
- É que eu tô pegando ela... Muhahaha. É ideia, calma, controle, respira, inspira, respira, inspira.
- Porra véi, ela pegou aquele ônibus lotado cheio de macho!
-Machos negros, suados e fedendo, do jeito que ela gosta.
- Seu filho da puta!
- São seus olhos, meu bem.
- Colé man!
- Me da uma carona?
- Eu vô passar na casa dela agora.
- Vô de pé então. CUIMENTO DA DESGRAÇA DESTRUIDOR DE CARONAS! 

sábado, 2 de junho de 2012

O menino motorista








O menino nem sabia o que era a vida, não tinha expandindo a visão além da janela da casa branca, não estava claro ainda para seus olhinhos pretos verem, mas lá estava ele com uma tampa de panela na mão, dirigindo e dirigindo. A mãe perguntava vezes sim, vezes não, o que ele estava dirigindo. E a mesma resposta ela ouvia numa voz seria, pois ele era serio, era motorista de ônibus.



Andando de cima pra baixo no quintal e fazendo a volta no portão da frente, assim eram as noites do menino motorista, claro que devidamente seguro das leis de transito ele carrega uma lanterna na mão direita, dizia ele ser o farol do BTU vermelho que ele manobrava nas esquinas do seu quintal. Não pense que ele era um garoto solitário de hábitos simples e imaginação fértil, ele nunca andava sozinho, era diariamente seguido pelo ônibus da AXE do seu irmão, o Rio Vermelho do seu vizinho, e sua melhor passageira.  Lá a noite continua escura, com todas as luzes desligadas, menos as luzes das três lanternas que cortavam o preto.



Hoje eu queria saber se o garoto realizou seu ‘’sonho’’, e se hoje dirige um BTU vermelho pelas ruas da cidade, eu provavelmente nunca vou saber, ou se os outros o fazem também, mas me peguei pensando que nesse tempo de greves de motorista, como o menino reagiria a tal falta que os ônibus lhe faziam.


Usando minhas palavras de narrador, eu acho que ele se sentiria usado pelo governo, onde seu maior prazer se tornaria uma grande dor de cabeça e com consequências, pois meninos são meninos, mas imagine você também, esse menino puxando a mão da mãe, levando ela até a frente da televisão e dizendo que ele também deveria ir para rua, deveria protestar, pois como os outros ele era também era um motorista de ônibus, que cumpria seus horários. Nunca tinha deixado um passageiro no ponto, nem a filha da vizinha que ao ‘’subir’’ no ônibus botava a mão em sua cintura e aperta bem forte, nem no irmão que quando não estava dirigindo subia no ônibus sem pagar passagem, ou no amigo ‘’eterno rival’’ que fazia sempre ultrapassagens perigosas, era motoristas natos.  


O sertão vai virar mar!




- O sertão vai virar mar!
- O sertão vai virar mar?
- O sertão vai virar mar!
- Quem falou uma barbaridade dessas?
- O lobo! Ele disse que era para mandarem leite em pó pra cá.
- E o que isso tem a ver com o sertão virando mar?
- Tem sim, já que aqui não tem água pra dissolver o leite. Essa é a única explicação.
- E não é que você tem razão.
- Eu falei, e por isso irei gritar que o sertão vai virar mar!
- O sertão vai virar mar!
- O sertão vai virar mar!

A fila






Sete caras na fila, conversando e rindo, mas desses sete só um não cortou a fila. O vigia da porta olhava e repetia pra Tia da cozinha, que os meninos de computação eram todos cafajestes.

Uns de barba, cavanhaque, bigodes, outros nada, mas sempre estão lá, falando e reclamando, tentando sempre pegar uma colher de cada coisa a mais, o costume os convém. O Seu vigia, fazia por que fazia questão de parar a fila bem na vez deles, dizendo sempre que o restaurante estava cheio de mais. Mas a gente sabia que era mentira dele, ele queria companhia, companhia do vigia.  

Lá vinha ele dizendo – Porque vocês não chegam mais cedo? – a gente nem mais respondia, ele sabia, no fundo ele sabia, matemático num tem nem tempo de comer. E lá vinha ele de novo dizendo que tudo se tiver o tempero bom da pra comer. Eu não discordo, com um tempero bom que mal tem?

Dessa vez ele falou que já rodou o país todo, que já comeu de tudo, tanto de comida quanto de rapariga. Que iam pra chácara do amigo, bebiam até a policia aparecer, que era uma festança, e era constante tirar um do xadrez. Apontava e dizia – Você! Deve ser o líder a alcateia de cafajestes, só anda na frente deles - Mas na verdade nem era, só não gostava de olhar pras costas das pessoas.

- Olha um macaquinho.
- Oxi, cortando assim ó, temperando fica uma delicia.
- Olha um passarinho.
- Oxi, cortando assim ó, temperando fica uma delicia.
- que cachorro bonito, vei.
- Oxi, cortando assim ó, temperando fica uma delicia.
- Olha que biologazinha linda!
- Oxi, cortando assim ó, temperando fica uma delicia.
- Deve ficar mesmo...
- Rapaz, Maria, olha pra isso, em computação só tem cafajeste.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O mentiroso e o sobrinho do prefeito




- Mentiroso de uma figa! Pare de dizer por ai que sou sobrinho do prefeito.
- Entenda meu amigo, esse é um charme a mais, lide com isso.
- Como vou lidar com um isso, moço?
- E sou eu que sei pegador? Se vira.

O dia não estava claro, não tinha pássaros cantando, nem mulheres andando em câmera lenta de cabelo ao vento. Estava tudo um caos.
Pedro estava lá, em pé, seduzindo uma medica. Seus braços pairavam de forma poética e melancólica, como um poema de Freddie mercury. Como Pedro sempre dizia:  -''tire essas mãos dos bolsos! Você tem que ser sedutor, engraçado e gentil''.

Sua fama já corria por toda parte, mulheres se jogavam as seus pés, homens o imitavam, nada mais podia apagar sua brilhante imagem de garanhão sedutor. Seu celular não parava de tocar, ele não tinha um minuto de sossego, dava até aulas de sedução. Todo dia bem cedinho, na sala 217. Era sem erro, lá estava ele, de costas para o quadro gesticulando. Nas cadeiras estavam eles e também estavam elas.

Ele era inteligente e atleta, profissional e de lábia forte. Andava com uns pobres coitados que tentavam por Modus Ponens absorver um pouco da sua magia.

Eu particularmente nunca o vi perder uma mulher, era certo, um olhar e lá estava ela, seduzida e encantada. Não importava se ela era contra casamento, malvada, difícil, uma olhadela e ela já era.

Marcia.
Maria.
Joana.
Sandra.
Tais.
Carla.
Silvia.
Cida.
Renata.
Fernanda.
Erica.
Já falei Marcia?

- Cara que relógio de rico, véi!
- Foi meu tio que me deu.
- Pohha, ele deve ser ricão!
- Não moço, ele é politico.
- O prefeito da tua cidade?
- Não rapaz.
- ETA POHHA, OLHA O RELOGIO DE PEDRO!!!
- Ohh véi, para com isso.
- FOI O TIO DELE PREFEITO QUE DEU!!!
- Óh que bicho mentiroso, véi;

Momentos depois já estava na boca do povo, o sobrinho do prefeito, um partidão, um pão.

Nós a amamos





Essa mulher é um saco! Casar por qual motivo? Meus amigos me falaram a verdade, pois a cerveja é sempre melhor que a garrafa, se é que você pode me entender. Como vou explicar isso de uma forma que sua cabeça pequena e cheia de mediocridades consiga entender. - Minha mulher é um saco. - Ela anda falando que eu sou um cara estupido, largado, preguiçoso, disse até que a magia acabou. Eu ando me perguntando que magia? A das pernas dela, só pode. Ali sim é magica, ou era. Hoje ela é um saco.
 
 Eu não vou ver seu ponto de vista Fulana. Cadê minha Boa?... Eu? Ta louca mulher? Nunca lhe tirei da sua família, eles que não aguentavam essa sua cabeça... Sua mãe é sim uma vaca! E você sempre será a vaquinha filha dela... Jogou fora!?... Você que correu atrás de mim... Faz essa criança parar de chorar Fulana, a quem essa criatura puxou... Leite? E você num já vem com leite de fabrica.... Tá, eu trago o leite... Vou ali comprar cigarros e já volto...



sábado, 12 de maio de 2012

O velho Negro




Por: Junior Nodachi

O dia insistia em nascer, insistia em nascer cheio de sol, cheio de carros engarrafados, cheio de pessoas brincado de serem felizes. Nascia para mim, pra você e nascia também para Seu José.
Seu José era um velho, velho e negro, preto como pássaro preto. Seu José não gostava muito de ser chamado pelo que não  era, ou ser visto como não era. Ele sempre repetia para quem tivesse ouvidos para ouvir – Sou preto, preto como o peito do pé de Pedro, que também é preto. – Reclamando de cima pra baixo e de baixo pra cima, lá ia ele na terça-feira ensolarada que insistia em nascer.  Odiava ir ao medico, pensava em morte toda vez que subia aqueles quatro andares no elevador lotado de pessoas apressadas. ‘’Mas deixa ser como será’’, repetia depois do grande suspiro de sempre e entreva.
Pegou a ficha 79, sendo que ainda chamavam a 36, mas pra quem já viveu 84 anos de pura lábia, e de ter tirado todo proveito dela possível, ficaria satisfeito por uma cadeira no corredor, sabe como é perna de velho.
Esperavam dois do lado dele, em pé. Um era magro alto e negro, assim como Seu José, no entanto bem novinho. E o outro era baixinho e barbudo, mas com olhos nervosos,  que iam de um bolo de papel que segurava, para um giro completo pela sala de espera, e retornava na mesma velocidade para o bolo novamente.
E assim, com o clima de um lugar frio no dia ensolarado que insista em nascer, Seu José começava a prosear.
     - Eu lembro bem dessa minha época de negro safado, na minha cabeça é como se tudo fosse ontem. Pense num cabra namorador, só no meu bairro eu tinha quatro, pense num negro charmoso. Charmoso e cheio do dinheiro. Naquela época eu fazia de tudo, não é que nem hoje não, tudo cheio de não me toques, era serviço de homem valente. Sempre morei aqui, desde quando posso me recordar, rodei o país todo, mas sempre acabava voltando, era o mar que me puxa, ou então eram as sereias, eu nem sei ao certo, era tanta sereia. Vocês que estão novos bem sabem do que tô falando, pescar uma sereia nesse marzão não tem nada melhor, to errado? Não tô. Pena que a vara de pesca do Vei já tá aposentada, mas o tempo era bom. Era três nessa época, uma aqui na cidade, uma em outro estado e uma terceira, daqui também. Era tudo muito bom, problema mesmo só veio aparecer na quarta em diante. Falaram-me uma vez que era crime, mas crime seria deixar elas pros outros, um negro pintoso desse na época, todas queriam. Já brigaram muito por mim, sabia? Um dançarino pé de valsa. Quer dizer, valsa não, samba. Um dançarino pé de samba, cheiroso e cheio do dinheiro, chega os bolsos ficavam estufados  com o volume saliente do monte. É assim meu filho, pra ter mulher num basta ser um negro charmoso como eu, tem  que ser cheio do dinheiro também. O Seu Sargento que falou isso pra mim na época que eu servia. Antes deu morrer e visitar o diabo, não gostei de lá, ai revive de novo. O diabo era miserável demais, mão de vacaaaa..... O problema são as paraibanas, não invente não, conheci uma vez, ela sentiu o cheiro do negro e não resistiu. Ai tive que casar, a família era muito brava, cadê a modernidade quando a gente precisa? Ai ficou nisso. Quando voltei pra minha terra trouxe ela. Mas não deixei minhas negas cheirosas atoa, toda sexta a noite era de samba, e de samba ela foi por mais uns trinta anos. No começo ela reclamava, brigava, um dia até faça tentou me meter. Sabe como é mulher paraibana, tudo virada no diado. Hoje ela já foi, foi de volta do pro Seu Diabo, sou viúvo, um viúvo negro e cheiro. Lembro é da época que comprei minha casa com cinco Cruzados. E era muito, o salario do peão era 2,75, lembro como se fosse hoje. Mas isso hoje nem um quilo de farinha compra, naquela comprava quatro sacas.
- Número 79... Número 79.
- Eu já vou é indo, vê se dessa vez eu morro de vez, e vocês vão pegar as sereias de vocês, agora sem brigar, o que num falta é mulher nesse mundão. Tem de todo tipo e toda cor. Agora um conselho bom: tenham logo uma de cada, pra não enjoar, é mais fácil assim, eu tive muito de um tipo só, agora o negro tá velho e as negras tão velhas, e os negrinhos novos que tem que continuar a história.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A história de Arthur (parte 02)



‘’ O amigo gordo’’
Por: Junior Nodachi

O vídeo game ligado, aos pés de uma bola enrolada em cobertores quentes berrava.
- Capitão Price, tudo limpo a esquerda, devemos avançar?
- Sim Sargento.  Avançaremos em direção ao ponto de encontro.
- Dois Tangos a oeste Capitão.
- Entendido, derrube-os.
- Abatidos Senhor
-Ótimo
E mais um dia se seguia na vida de Guilherme. Com suas três arrobas bem distribuída em um corpinho de nove anos. Não era de se estranhar seu apelido no colégio ser ‘’Gordo’’, era Gordo pra lá, Gordo pra cá, e seu nome passava a ser o apelido, assim como o apelido passava a ser seu nome. Nem em sua família era visto como Guilherme, e sim como Gordo, às vezes Gordinho. Guilherme tinha uma rígida rotina diária, que começava logo cedo, com o bater do seu pai na sua porta, assim Guilherme levantava todo melado de sorve de flocos. Era bastante comum ele passar pelo pai em direção ao banheiro, arrastando um cobertor e com sorvete ressecado espalhado pelo rosto. A mãe nem ligara mais, ficava satisfeita do filho não ser um garoto de rua, ou algum delinqüente juvenil. Deposição pra isso Guilherme tinha de sobra, pensava sua mãe.
Guilherme tomava café, ia para o colégio, lanchava no intervalo, voltava para casa, almoçava, jogava vídeo game, lanchava, trocava de jogo, lanchava, ia jogar online, jantava, socializava com os colegas pelo seu celular de ultima geração que ganhara da avó, e trocava SMS com sua namoradinha virtual. Namorada essa que Arthur, dizia por vezes, ser um pedófilo tão gordo e melado de sorve quanto o próprio Guilherme.  Arthur vinha dormir na casa de Guilherme quase que todos os meses, coisas da família, tanto de Guilherme como a do próprio Arthur. Diziam que era bom ter amigos, no caso, um pelo menos. Dessa vez era Guilherme que iria para casa de Arthur, o que lhe deixara de mau humor.
De mochila pronta, Guilherme falava para o pai – Vamos logo seu velho! Cadê o vigor dos bons anos? – fazendo uma cara de capeta que só ele sabia.  No fundo a mãe esbravejava – Já pegou o sabonete? A escova de dente? Não quero ver meu filho sendo malvisto pelos outros, ainda mais pela mãe do Arthur, que provavelmente lhe educou melhor do que eu a você.
- Fala serio mãe, o Arthur é um careta pé no saco.
- Olha a língua, seu moleque! – falava a mãe de Guilherme de olhos e dentes serrados, bufando palavras ao entrar de volta em casa.
A chegada em Arthur era bem rápida. Cerca de vinte minutos de carro. Uma eternidade para Guilherme, que mal passava da porta, subia correndo desengonçadas as escadas em direção ao quarto de Arthur, e esmurrava sua porta azul de madeira pesada e forte.
- Arthur! abre ai, anda cara, é vida ou morte. – Arthur levantava lentamente depois de um bocejo longo e tedioso. Já sabia há tempos que nada que Guilherme lhe dizia era realmente de vida ou morte.
- O que é tão urgente seu gordo? – dizia Arthur, com seu semblante serio e chateado.
- Não tenho tempo para explicações. Você tem tomada de três entradas ai? – dizia Guilherme, ao mesmo que entrava como um tufão gordo e de cheiro doce. Vestia uma camisa branca e uma bermuda bege, o que levara a Arthur a lhe comprar com uma casquinha de flocos.
Guilherme ligava o vídeo game como se sua vida dependesse disso, se espremeu entre a estante de livro, e a cômoda, onde a televisão estará em cima. Com só um braço tateou a parede, e com a cara colada na gaveta da cômoda nada via, mas mesmo assim conseguiu em tempo recordo conectar a tomada do eliminador e o cabo de vídeo e áudio. Saiu da posição incomoda sem fôlego e sentou no chão, procurando o CD em sua mochila.
Arthur via aquilo tudo de camarote, da sua cama, como sempre ficava. Olhou o gordo e suas peripécias para instalar um vídeo game, e sentando ali ficou, com olhos grudados numa falsa guerra, se sentido um falso, um falso homem pensava Arthur.
- Ei, seu gordo! – falou Arthur com uma voz doce. – O que você vai ser quando crescer, qual é seu sonho? – Sem se dar a importância de virar o rosto para o Arthur, Guilherme respondeu. – Quero ser projetista de jogos. Jogar pra viver e viver pra jogar, esse é meu lema. – Arthur, virara pra janela e mostrava os dentes de forma alegre.
- Isso é bem coisa de gordo mesmo.
- Minha mãe diz que é coisa de garotos inteligentes. – Arthur preferiu não comentar, sobre uma teoria que lera na internet a respeito de mulheres que chamam homens de inteligentes.  Mas ainda mantinha um sorriso no rosto, desfigurado por pouca pratica.
- Você tem sorvete ai? – perguntou Arthur.
- Deixei com meu pai lá embaixo, ele deve ter dado pra sua por no freezer.
Arthur gostava de sorvete de flocos. Fazia dos pequeninos floquinhos de chocolates, pessoas de uma grande cidade cheia de neve, e os comia de formas monstruosas e com barulhos bizarros. Guilherme reparara, mas nunca permutava por que ele comia assim. Na verdade ele gostava de ver Arthur assim, pois ficava muito entediado quando Arthur agia como seu chato e carrancudo avô. 

A história de Arthur.




A história de Arthur.
Por: Junior Nodachi

‘’O escritor’’

-Oi. Meu nome é Arthur, tenho oito anos, e meu sonho é ser... Eu realmente não sei o que pretendo ser, dizem que sou novo demais pra pensar nisso, dizem que sou novo de mais pra fazer quase tudo. De certa forma é um lado bom de ser eu. Não preciso de metas, assim não tenho decepções.  É como minha mãe sempre diz: ‘’você puxou a quem Arthur? Nem parece meu filho. Você é muito precoce, sabia?’’. E eu, por vezes respondo: ‘’eu sei mãe, a senhora já disse’’.
Arthur continuava a olhar para a folha em branco do caderno e pensar no que iria escrever. Ele desejava passar uma mensagem seria, não só contos de solidão, fabulas cotidianas, ou devaneios de uma criança ‘’precoce’’ como dizia sua mãe. Ele queria algo mais.
Por vezes olhava para janela larga e de vidro fino, que refletia uma rajada de luz para dentro de seu quarto azul. Olhava e pensava como seria lá fora, imaginava e imaginava, mas nada fazia. Ele não era muito de sair e brincar, não gostava de multidões, ou de crianças.
- Como posso ter duvidas com um pequeno pedaço de papel, tenho oito anos, sou quase um homem feito - Dizia paras as paredes de forma shakespeareana. E as paredes por sua vez, aceitavam de bom grado sua reclamação - Por isso gosto de vocês, nunca dizem o que devo ou não fazer – disse novamente em direção das paredes, agora expressando um breve sorriso.
Arthur se deitou sobre a escrivaninha, como se ali fosse sua cama, ou um ninho de Pardal, seu animal favorito. Queria quando mais novo, ser um passarinho, e perguntava pelo menos duas vezes ao dia para sua mãe quando suas asas iriam nascer. Agora estava ali, pensando na sua mãe Pardal, e nos seus irmãozinhos Pardais cantarolando ao seu lado. Fechou os olhos e em nada pensou, só escutou o som dos Pardais que moravam na arvore do vizinho.
Seu quarto era o típico quarto de criança. Azul Celeste com detalhes em um tom de gelo, claro feito a pele branca da filha do vizinho, garota que brincara às vezes, na maioria delas, obrigado por sua mãe. Com estantes cheias de carrinhos e bonecos. Um em especial estava completamente sujo de lama, ele o apelidara de ‘’Calango’’, talvez pela influência de sua mãe, nordestina de nascença, e pelas visitas a casa de seu avô em Pernambuco.  Dissera uma vez para o avô, que lhe contava uma história, que queria por que queria ser Cangaceiro. Seu avô, velho carrancudo e de expressão feiosa, mas muito gentil com o neto, dava gargalhadas seguidas de pequenas tosses e falta de ar.
- O cangaço se foi há tempos Arthur.
- Mas não me custa muito me tornar o últimos deles.
- E que tal bombeiro? Eu sempre quis ser bombeiro.
- Não, não é o que tenho em mente.
- Jogador de futebol! É perfeito, igual seu pai quando mais novo. Ahh... Antonio deveria ter seguido carreira, poderia ir até pra seleção...
- Não, nem gosto de futebol, assisto só para fazer companhia ao pai, às vezes.
- Você é muito precoce Arthur – repetiu o avô as palavras da mãe. Enrugando um rosto com um sorriso meio banguela.
Arthur adora esse sorriso feio, se sentia confortável, mas demasiadamente contrariado pelo sarcasmo do velho.  Que era um velho tão velho quantos os outros velhos, mas um velho diferente. Certa vez lhe disse, enquanto Arthur fazia um discurso cheio de gás sobre as datas comemorativas serem só um apelo comercial das indústrias em busca de lucro. – ‘’ Sou mais novo que você, Arthur. E você é mais velho que todos nós’’.
Arthur confessara muitas vezes em seus pensamentos que não entendeu bem a frase do avô, mas gostara mais de ser comparado a um velho, do que ser rebaixado aos seus recentes oito anos, oito anos e meio, gostava de ressaltar.  Agora Arthur levantava sonolento de seu ninho de Pardal na escrivaninha, com os olhos ainda meio fechados, vendo sua cama de lençol azul com carrinhos amarelos, fuscas amarelos, mais uma vez ressaltava Arthur em sua cabeça, pois gostava de separar as coisas, separa os carros dos bois.
Sentado e de cabelo amassado, vestido no pijama azul que sua tia lhe dera, coçava a sobrancelha e resmungava – Por que tudo meu tem que ser azul? Eu nem gosto de azul, gosto de verde, ou de preto, mas nunca fui fã de azul. – pegava seu grafite verde, e o posicionava em cima da primeira linha do caderno. Pensando que deveria ter escrito no computador, mas que dessa forma ele sentiria o que sentiu os escritores do tempo de ‘’bolinhas’’.
- Pelo menos agora já tenho um titulo para minha obra prima: ‘’Mais novo que você e mais velho que nós’’.