quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A história de Arthur (parte 02)



‘’ O amigo gordo’’
Por: Junior Nodachi

O vídeo game ligado, aos pés de uma bola enrolada em cobertores quentes berrava.
- Capitão Price, tudo limpo a esquerda, devemos avançar?
- Sim Sargento.  Avançaremos em direção ao ponto de encontro.
- Dois Tangos a oeste Capitão.
- Entendido, derrube-os.
- Abatidos Senhor
-Ótimo
E mais um dia se seguia na vida de Guilherme. Com suas três arrobas bem distribuída em um corpinho de nove anos. Não era de se estranhar seu apelido no colégio ser ‘’Gordo’’, era Gordo pra lá, Gordo pra cá, e seu nome passava a ser o apelido, assim como o apelido passava a ser seu nome. Nem em sua família era visto como Guilherme, e sim como Gordo, às vezes Gordinho. Guilherme tinha uma rígida rotina diária, que começava logo cedo, com o bater do seu pai na sua porta, assim Guilherme levantava todo melado de sorve de flocos. Era bastante comum ele passar pelo pai em direção ao banheiro, arrastando um cobertor e com sorvete ressecado espalhado pelo rosto. A mãe nem ligara mais, ficava satisfeita do filho não ser um garoto de rua, ou algum delinqüente juvenil. Deposição pra isso Guilherme tinha de sobra, pensava sua mãe.
Guilherme tomava café, ia para o colégio, lanchava no intervalo, voltava para casa, almoçava, jogava vídeo game, lanchava, trocava de jogo, lanchava, ia jogar online, jantava, socializava com os colegas pelo seu celular de ultima geração que ganhara da avó, e trocava SMS com sua namoradinha virtual. Namorada essa que Arthur, dizia por vezes, ser um pedófilo tão gordo e melado de sorve quanto o próprio Guilherme.  Arthur vinha dormir na casa de Guilherme quase que todos os meses, coisas da família, tanto de Guilherme como a do próprio Arthur. Diziam que era bom ter amigos, no caso, um pelo menos. Dessa vez era Guilherme que iria para casa de Arthur, o que lhe deixara de mau humor.
De mochila pronta, Guilherme falava para o pai – Vamos logo seu velho! Cadê o vigor dos bons anos? – fazendo uma cara de capeta que só ele sabia.  No fundo a mãe esbravejava – Já pegou o sabonete? A escova de dente? Não quero ver meu filho sendo malvisto pelos outros, ainda mais pela mãe do Arthur, que provavelmente lhe educou melhor do que eu a você.
- Fala serio mãe, o Arthur é um careta pé no saco.
- Olha a língua, seu moleque! – falava a mãe de Guilherme de olhos e dentes serrados, bufando palavras ao entrar de volta em casa.
A chegada em Arthur era bem rápida. Cerca de vinte minutos de carro. Uma eternidade para Guilherme, que mal passava da porta, subia correndo desengonçadas as escadas em direção ao quarto de Arthur, e esmurrava sua porta azul de madeira pesada e forte.
- Arthur! abre ai, anda cara, é vida ou morte. – Arthur levantava lentamente depois de um bocejo longo e tedioso. Já sabia há tempos que nada que Guilherme lhe dizia era realmente de vida ou morte.
- O que é tão urgente seu gordo? – dizia Arthur, com seu semblante serio e chateado.
- Não tenho tempo para explicações. Você tem tomada de três entradas ai? – dizia Guilherme, ao mesmo que entrava como um tufão gordo e de cheiro doce. Vestia uma camisa branca e uma bermuda bege, o que levara a Arthur a lhe comprar com uma casquinha de flocos.
Guilherme ligava o vídeo game como se sua vida dependesse disso, se espremeu entre a estante de livro, e a cômoda, onde a televisão estará em cima. Com só um braço tateou a parede, e com a cara colada na gaveta da cômoda nada via, mas mesmo assim conseguiu em tempo recordo conectar a tomada do eliminador e o cabo de vídeo e áudio. Saiu da posição incomoda sem fôlego e sentou no chão, procurando o CD em sua mochila.
Arthur via aquilo tudo de camarote, da sua cama, como sempre ficava. Olhou o gordo e suas peripécias para instalar um vídeo game, e sentando ali ficou, com olhos grudados numa falsa guerra, se sentido um falso, um falso homem pensava Arthur.
- Ei, seu gordo! – falou Arthur com uma voz doce. – O que você vai ser quando crescer, qual é seu sonho? – Sem se dar a importância de virar o rosto para o Arthur, Guilherme respondeu. – Quero ser projetista de jogos. Jogar pra viver e viver pra jogar, esse é meu lema. – Arthur, virara pra janela e mostrava os dentes de forma alegre.
- Isso é bem coisa de gordo mesmo.
- Minha mãe diz que é coisa de garotos inteligentes. – Arthur preferiu não comentar, sobre uma teoria que lera na internet a respeito de mulheres que chamam homens de inteligentes.  Mas ainda mantinha um sorriso no rosto, desfigurado por pouca pratica.
- Você tem sorvete ai? – perguntou Arthur.
- Deixei com meu pai lá embaixo, ele deve ter dado pra sua por no freezer.
Arthur gostava de sorvete de flocos. Fazia dos pequeninos floquinhos de chocolates, pessoas de uma grande cidade cheia de neve, e os comia de formas monstruosas e com barulhos bizarros. Guilherme reparara, mas nunca permutava por que ele comia assim. Na verdade ele gostava de ver Arthur assim, pois ficava muito entediado quando Arthur agia como seu chato e carrancudo avô. 

A história de Arthur.




A história de Arthur.
Por: Junior Nodachi

‘’O escritor’’

-Oi. Meu nome é Arthur, tenho oito anos, e meu sonho é ser... Eu realmente não sei o que pretendo ser, dizem que sou novo demais pra pensar nisso, dizem que sou novo de mais pra fazer quase tudo. De certa forma é um lado bom de ser eu. Não preciso de metas, assim não tenho decepções.  É como minha mãe sempre diz: ‘’você puxou a quem Arthur? Nem parece meu filho. Você é muito precoce, sabia?’’. E eu, por vezes respondo: ‘’eu sei mãe, a senhora já disse’’.
Arthur continuava a olhar para a folha em branco do caderno e pensar no que iria escrever. Ele desejava passar uma mensagem seria, não só contos de solidão, fabulas cotidianas, ou devaneios de uma criança ‘’precoce’’ como dizia sua mãe. Ele queria algo mais.
Por vezes olhava para janela larga e de vidro fino, que refletia uma rajada de luz para dentro de seu quarto azul. Olhava e pensava como seria lá fora, imaginava e imaginava, mas nada fazia. Ele não era muito de sair e brincar, não gostava de multidões, ou de crianças.
- Como posso ter duvidas com um pequeno pedaço de papel, tenho oito anos, sou quase um homem feito - Dizia paras as paredes de forma shakespeareana. E as paredes por sua vez, aceitavam de bom grado sua reclamação - Por isso gosto de vocês, nunca dizem o que devo ou não fazer – disse novamente em direção das paredes, agora expressando um breve sorriso.
Arthur se deitou sobre a escrivaninha, como se ali fosse sua cama, ou um ninho de Pardal, seu animal favorito. Queria quando mais novo, ser um passarinho, e perguntava pelo menos duas vezes ao dia para sua mãe quando suas asas iriam nascer. Agora estava ali, pensando na sua mãe Pardal, e nos seus irmãozinhos Pardais cantarolando ao seu lado. Fechou os olhos e em nada pensou, só escutou o som dos Pardais que moravam na arvore do vizinho.
Seu quarto era o típico quarto de criança. Azul Celeste com detalhes em um tom de gelo, claro feito a pele branca da filha do vizinho, garota que brincara às vezes, na maioria delas, obrigado por sua mãe. Com estantes cheias de carrinhos e bonecos. Um em especial estava completamente sujo de lama, ele o apelidara de ‘’Calango’’, talvez pela influência de sua mãe, nordestina de nascença, e pelas visitas a casa de seu avô em Pernambuco.  Dissera uma vez para o avô, que lhe contava uma história, que queria por que queria ser Cangaceiro. Seu avô, velho carrancudo e de expressão feiosa, mas muito gentil com o neto, dava gargalhadas seguidas de pequenas tosses e falta de ar.
- O cangaço se foi há tempos Arthur.
- Mas não me custa muito me tornar o últimos deles.
- E que tal bombeiro? Eu sempre quis ser bombeiro.
- Não, não é o que tenho em mente.
- Jogador de futebol! É perfeito, igual seu pai quando mais novo. Ahh... Antonio deveria ter seguido carreira, poderia ir até pra seleção...
- Não, nem gosto de futebol, assisto só para fazer companhia ao pai, às vezes.
- Você é muito precoce Arthur – repetiu o avô as palavras da mãe. Enrugando um rosto com um sorriso meio banguela.
Arthur adora esse sorriso feio, se sentia confortável, mas demasiadamente contrariado pelo sarcasmo do velho.  Que era um velho tão velho quantos os outros velhos, mas um velho diferente. Certa vez lhe disse, enquanto Arthur fazia um discurso cheio de gás sobre as datas comemorativas serem só um apelo comercial das indústrias em busca de lucro. – ‘’ Sou mais novo que você, Arthur. E você é mais velho que todos nós’’.
Arthur confessara muitas vezes em seus pensamentos que não entendeu bem a frase do avô, mas gostara mais de ser comparado a um velho, do que ser rebaixado aos seus recentes oito anos, oito anos e meio, gostava de ressaltar.  Agora Arthur levantava sonolento de seu ninho de Pardal na escrivaninha, com os olhos ainda meio fechados, vendo sua cama de lençol azul com carrinhos amarelos, fuscas amarelos, mais uma vez ressaltava Arthur em sua cabeça, pois gostava de separar as coisas, separa os carros dos bois.
Sentado e de cabelo amassado, vestido no pijama azul que sua tia lhe dera, coçava a sobrancelha e resmungava – Por que tudo meu tem que ser azul? Eu nem gosto de azul, gosto de verde, ou de preto, mas nunca fui fã de azul. – pegava seu grafite verde, e o posicionava em cima da primeira linha do caderno. Pensando que deveria ter escrito no computador, mas que dessa forma ele sentiria o que sentiu os escritores do tempo de ‘’bolinhas’’.
- Pelo menos agora já tenho um titulo para minha obra prima: ‘’Mais novo que você e mais velho que nós’’.