quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Um romance.


                                                      (Não achei uma foto legal)


‘’Um tanto maior que o normal’’
Por: Junior Nodachi


Um pedaço.


É um tanto maior que o normal, como o próprio titulo já diz. Não que eu faça histórias pequenas, não que eu me importe de mudar um pouco meu formato, não temos leitores. Por isso hoje Tudo começa normal. Uma história normal. Parar atrair o leitor em geral, devemos titular nossa história de romance compacto, e não simplesmente de texto. Eu gosto de textos, são cômodos, simples. Mas hoje precisamos de algo com mais corpo, com um fundamento, com impacto. Isso pode não passar de um simples desafio de uma mente cansada. Nova, banal, mas ainda uma mente cansada.
- Vamos crescer, meu bem. Mas sem deixar de sermos crianças. 
Ele fala vagamente, ela mal consegue escutar. Esta em seus braços, mas diferente do que parece, do que é comum. Lá fora não está frio. Não esta nevando, nem ao menos chovendo. Eles não viverem uma história de dificuldades para estarem juntos. Não existe um motivo, não existe razão, intervenção do universo, ou algo místico que os prendam um ao outro. Não são bonitos como os amantes dos livros consagrados, ou dos contos infantis. Arrisco a dizer que nem ao se sentem tão atraídos um com o outro de maneira forte e vivida como os velhinhos de família grande que vagam nos parques domingo atarde.
Todo começa com eles se beijando. Como qualquer romance deve começar. Algo que prenda sua atenção, que faça você imaginar. O longo apertar da sua mão na mão dela, um apertar forte, intimidador, protetor. Por algum motivo desconhecido desse pobre narrador que recorda a cena romântica, ela fecha os olhos. Ele conduz a sua mão para o pescoço dela, olha para seus olhos fechados e a puxa pra si. O movimento leva horas, dias, meses, uma eternidade. Visto de longe parecem duas estatuas. Duas molduras frias de bronze ou mármore. Os olhos dele vão se fechando levemente, junto com os braços dela que enlaçam o tronco dele. Mas um ato de proteção. Uma notória medida de filhos criados por mães.

‘’Somos uma geração de homens criados por mulheres. ’’ Uma frase conhecida, até onde eu me lembro. Uma frase verdadeira até onde me recordo. Alimentam-nos, nos criam, nos protegem. São assim nossas mulheres. São assim os romances. Nós não buscamos algo que nos complete, buscamos algo que nos foi dado e tirado, por isso nós crescemos. E por isso não deixamos de sermos crianças.

A mão dela vai abrindo caminho entre seus corpos, levemente, cuidadosamente. Vai abrindo espaço, fazendo seu caminho caminhos pelas vielas da carne, no mais conhecido le corps de l'être aimé. E finalmente seus dedos têm onde descansar. Repousam na face cansada dele. Repousam, mas não param totalmente. Não conseguem, estão vivos, estão em busca da forma mais bruta de carinho, da forma mais bruta de bem estar, de prazer. E lá eles continuam, por anos, por décadas, por centenas de anos.

Pessoas continuam a andar entres eles, mas esse não é um fato importante que mereça a atenção de um narrador enquanto um ato de dimensões bem maiores acontece perante suas lembranças. Vamos dizer que o cenário some, puff! Que as pessoas sumiram, que os pássaros congelaram ou que nem existiram. Vamos direto ao que todos buscam no romance. Ao que eu estou disposto a contar.

Dizem que existe uma linha tênue que separa o amor dos outros sentimentos. Dizem que o amor não passa de uma reação do cérebro. Logo esse amor, o objeto de trabalho de incontáveis poetas, filósofos e escritores em geral, o amor, um dos sentimentos mais famosos entre os seres humanos, é posto em dúvida aqui. Todos nós sabemos que o amor não passa do seu desejo sexual potencializado pela dopamina, um neurohormônio produzido pelo hipotálamo, que provoca a liberação de testosterona, hormônio que desperta o desejo sexual. O amor é uma sensação de união que é reforçada pela presença de ocitocina, que é sintetizada no hipotálamo e secretada no sangue pela pituitária. Em mulheres, a ocitocina estimula as contrações do parto, lactação e amor maternal. Tanto em homens quanto em mulheres está altamente durante o sexo e explode durante o orgasmo, tendo influencia na união do casal.  

Alguém vai deixar de amar depois dessa explicação? Eu realmente espero que não. Eu sou um narrador, mas gosto de ficar junto também. Enfim, continuando. Eles finalmente se beijam. Tudo começa com eles se beijando, como qualquer romance.


Dois pedaços.


Agora pulamos para uma parte onde ele morreu. Sim, nosso belo e romântico protagonista está morto, mortinho da Silva. Daqui eu consigo ver claramente, os destroços retorcidos do Dodge Charger rt 1970, comprado ilegalmente na mão de um estrangeiro qualquer por uma pechincha, segundo uma amigo dele. Ele adorava finalizar os sábados passando cera na lataria amassada gentilmente por ela quando manobrava de forma angelical em direção à garagem de sua casa. Ele adora procurar moedas nos enormes bancos de couro, tirados de um Chevy Impala 1965, e comprados pela metade do preço.  Era um ótimo lugar pra passar a anoite quando ela o botava para fora de casa.

Agora estava lá, todo aquele couro com espuma, e o recosto de bolinhas de madeira feito por ela, à mão. Estava lá, queimando e queimando. Um fogo belo, meio vermelho, meio azul. Agora ele se encontra aqui parado ao meu lado, ouvindo atentamente eu narrar esse pequeno pedacinho da sua morte.
Ele olha para mim... Continua olhando e nada fala. Melhor eu me apresentar, não me lembrava dele ser tímido. As pessoas podem mudar quando morrem, pelo visto.

- Muito prazer meu bom homem, eu sou o Narrador.
- Narrador? – Ele olhava com aqueles olhos de peixe morto, típicos de um homem morto.
- Sim, sou o narrador da vida, e hoje eu serei seu narrador.
- Como assim narrador?- Realmente eu não lembrava dele ser um cara tão lerdo em entender os fatos. É a morte, ela faz isso.
- Deixamos isso pra lá. Como você se chama?
- Eu... Eu... Eu me chamo... Eu não lembro como me chamo.
- Óh, um horrível fato, todos devemos ter nossos nomes quando morremos. É a única hora que precisamos deles, precisamos ser lembrados. Que tal olhar em sua carteira. Você tem uma carteira ai, não tem?
- Sim, tenho. Isso é estranho.
- Não discuta comigo, apenas olhe seu nome, para que possamos voltar a narrar sua morte.
- Esta aqui, Ângelo, chamo-me Ângelo.
- Lindo nome Ângelo, chamo-me Narrador, como disse antes, é um prazer imenso lhe conhecer. Agora pode ficar sentando ai se quiser, tenho um romance para narrar.
-Tudo bem... Eu acho.

Ahh, que pena. Perdi a chegada dos bombeiros e policias. Uma falta eterna par minha carreira de narrador.
A pericia constata que Ângelo dormiu ao volante, devido a algum motivo que será descoberto futuramente quando seu corpo for examinado. Agora a policia segue em um pequeno comboio de dois carros. As luzes embebedam os outros motoristas que seguem em sentido contrario. Um barulho de sirenes e chuva entra pelas janelas abertas dos apartamentos que ficam de frente para a ponte. Pelo visto os policias estão calmos, ou cuidadosos por causa da pista molhada. Uma situação plausível, visto que acabaram de informar a Ela que seu amado tinha falecido. Assim como eu, assim como você, esses policiais também devem ter suas famílias, seus problemas, seus romances. Seria imprudente arriscar tudo depois do exemplo que nosso amigo Ângelo deu. 


Três pedaços.

  A dor psicológica de um término é tão real como uma dor física.
A dor eterna de um término pode ser incomparável.
Ela estava encolhida, sentada no seu sofá da lã de alguma grife famosa, comprado pela sua mãe. Por que por ela, qualquer um estava bom. Ela era simples, mas de muitos detalhes, animaizinhos na estante, a cortina de miçanga, a bolsa de crochê comprada no mercado de artesanato. As panelinhas de barro com pinturas de um fazendeiro e sua esposa ficavam em cima da mesa de centro em forma de yin yang. 

 Ela chorava. Expelia pelos olhos suas dores, seus sofrimentos, suas angustias, seus sonhos. Lamentava e lamentava. Ela achava que Ângelo era o amor da sua vida, pelo menos o ultimo amor da sua vida. Antes ela teve vários últimos amores. O amigo do primário, o lindo alto do final da rua, a paixão do ônibus, o jogador de vôlei, o musico. Ahh, os músicos, foram seis ou sete. O trabalhador serio, o universitário, o medico e finalmente o Ângelo, que por sua vez não tinha nenhum adjetivo.

Ela chorava. Chorava por que depois deito tempo no carinho desordeiro dele, ela simplesmente deixa de ser a criança que prometera pra ele se tornara mulher. Ela ainda recorda dos olhos dele, olhos pretos como a camisa que vestia. Olhos tristes enquanto ela dizia que ele não era suficiente. Assim ela lembrava. Na verdade, ela simplesmente o ignorava, o deixava de lado, o deixa no escanteio. Ele era sem adjetivo, o que ele iria dizer pra mãe, para o pai, pra família. Ela dizia sempre, ‘’foda-se o que eles acham’’, mas por sua vez, sempre queria a opinião deles. E Ângelo era um homem sem adjetivos. 

Ela chorava. Chorava por não ter tido o filho que ele tanto queira. Filha na verdade, ele sempre dizia que não poderia ser mais responsável por um homem, assim como ele cuidara dos seus três irmãos. Ele queria outra dela na sua vida, uma copia menor, que ia crescer como muda de planta, como uma arvore na primavera. Sempre elogiava partes dela que ninguém tinha elogiado, queria ser lembrado, queria um adjetivo que não tinha.

Ela chorava. Chorava por nunca ter feito nada com ele, nunca ter matado ninguém com ele, nunca ter saído no carro dele. Ela achava o carro velho e bolorento. Agora um carro destruído e contorcido. Até o carro tinha adjetivos. Queria ter corrido com ele de mão dada, praticado seu esporte, ter bebido, mas bebido muito. Ele costumava chegar fedendo a bebida, de voz rouca, dizendo a amava. E ela respondia: ‘’ Você é legalzinho, mas não quando está bêbado’’. Queria ter conhecido a família dele inteira, queria ter roubado seu coração e botado em um vidro, pra guardar pra sempre, queria ter levado ele junto nas festas dos amigos, levar ele até na casa da tia pra fazer bordado. Ela o queria de volta.

Ela chorava. Assim foi um dia, uma semana, um mês, e nada. Chorava e chorava. Não comia, não reagia, não lutava. Se ele estivesse lá, logo mandaria ela levantar e ir ao parque mais ele, pra ela conhecer gente nova, pra ela se drogar, se pintar, se matar. Fazer qualquer coisa, menos ficar parada.  A dor psicológica de um término é tão real como uma dor física. E assim ela sentia, sentia e sentia. Era dor na perna, na barriga, dor no braço, na cabeça, o coração não parava, ela pedia que parasse, ela chorava e chorava.

Ela chorava. Mas agora não mais do mesma forma, não mais com lagrimas, não mais como podia. Todos já haviam ido embora, ela estava sozinha, e estava com medo. Tentava não pensar nele, mas a cada coisa que fazia lhe remetia o que ele fazia. Isso ainda a maltratava, mas ainda assim ela saia. Começou a ir ao mercado, arrumar a casa. De tempos em tempos até beber, bebia.

Ela chorava. E parecia ter envelhecido uns 10 anos. Sua pele estava clara como a neve que nunca vira, a não ser no cinema é claro. Branca e sem manchas, a não suas manchas. E como ele adorava cada mancha. Passava horas e horas alisando cada uma, olhando cada uma, conhecia todas, e apelidava todas. E as horas pareciam dias. As visitas aumentaram, os pais vinham, as tias, as primas. As amigas estavam sempre por lá, mas a maioria tinha casado. Ai como queria ter casado, ter tido o sobrenome estranho dele junto ao seu nome nobre. Como queria ter corrido nos becos escuros, subidos nos muros e ficado acordada até o raiar do dia.

Ela chorava. E voltou a chorar ainda mais quando via o Dodge Charger, que o homem do fim da rua vendia.


Quatro pedaços.  


- Anime-se! Temos que sair e ver o mundo.
E assim ela levantou do sofá de lã que passava as noites com ele e fio com a amiga. Foram para um bar, depois para outro e para outro. Toda noite era um diferente. Ela já tinha voltado ao trabalho, quando chegava lá estava sua amiga, em sua sala. Tinha dado a chave a ela pra alguma emergência, ou para o caso de esquecer a sua em algum lugar. Andava muito esquecida.

Nessa noite iram em uma festa agitada, com banda e pessoas alegres, ou em seu vago conceito de alegria, dançando e dançando. Ela estava belíssima, diga-se de passagem.  Meia-calça preta, uma saia de um bordado qualquer, uma blusa branca, um sutiã de renda, que dava pra se ver pelo decote. Eu não entendo muito de roupa de mulher. Mas para um simples narrador, ela estava magnifica.
- Não me olhe assim Ângelo, sabes que amo outra narradora. Mas meus olhos conseguem enxergar tal beleza ainda. Somos amigos Ângelo.
Algo de diferente aconteceu nessa noite. Ela acordou em um lugar estranho, em uma cama estranha. E o principal, com um cara estranho. Ele é bem apessoado, forte, tatuado, cabelo liso e um ar de presunção, mas ainda dorme. Dorme como Ângelo. Sinto-me feliz por ele não ter visto a noite dela, talvez por mim, talvez por ele. Não sei por onde anda a minha narradora que nem é minha, pode esta em qualquer história, mas a vida e a morte são assim.
Ela se sente culpada. Tão amedrontada, tão amarga... 
- Por que devo perceber o quão desgraçada eu sou? 

Ela volta pra casa, volta para o sofá, deita nos braços da amiga que dormiu por lá e dorme.  Na manhã seguinte ela viaja. Um dia, uma semana, um mês, um ano, uma década. Cada dia ela vai esquecendo ainda mais Ângelo, e cada dia Ângelo vai esquecendo um pouco mais dela. Viver no branco entre cada linha de um livro não é nada fácil no começo, não até você esquecer completamente de tudo que você tinha. Ângelo agora tenta aprender um pouco de narração comigo, mas confesso que ele não tem futuro nesse lado. Com exceção de uma destreza infalível para erros sintáticos, o que me ajuda me irrita de horas em horas.  

Ela volta pra sua casa. Nem acredita que tanto tempo se passou. Sua amiga casada com um afilha linda do lado. Olhos grandes como o dela, os outros traços devem ser do pai. Com o tempo reparo que ela se casou com o homem do final da rua. O homem que vendia Dodge Charger. Ela pergunta a ele se ainda tem o carro, e ele responde positivamente, dizendo que nunca conseguiu vender a lata velha.
- Eu estou interessada nele.
- Jura? Não é bem um carro feminino, e tem vários problemas, e sem falar que é bastante pesado.
- Não me importo, com o estado, só me venda.

Na manhã seguinte ele bate em sua porta, bem cedinho. Ela acorda do sofá, caminha até a porta e ela esta lá, com a filha no ombro e com um sorriso imenso.
- A senhora é dona de um Dodge Charger rt 1969 laranja madeira envelhecida com teto branco. Rodas originais aro quinze, vidros transparentes, motor semi-original sucateado, bancos em couro claro, e uma linda flor feita por essa criaturinha aqui com uma pedra na porta lateral esquerda.
- Obrigado.
- Não, eu que agradeço.
- Não, digo, a ela. Adoro flores.



Cinco pedaços (pedaço final)



Eu preciso finalizar esse romance, mas eu estou cansadíssimo.
- Ângelo, não quer termina pra mim?
- Você quer que eu narre o final de tudo?
- Sim.
- O que eu tenho a perder.
- A vida é que não é.
- Seu otário.

E então o narrador se senta entre uma linha e outra, bota as mãos atrás da cabeça e me observa. Eu não tenho muito que dizer, eu não vejo as coisas que ele estava vendo, pra mim está tudo branco. Ahh, agora vejo um carro, um carro parecido com o meu, mas esse é bem mais novo que o meu. Agora desce uma mulher de dentro dele.
- Tenho que descrever a mulher?
- Tem sim.
- Ah, tá.

É mulher de meia idade, linda pra idade dela, usa um tênis velho e o cabelo preso pra trás... Usa uma camisa preta de uma banda que eu desconheço e uma bolsa de crochê para o lado... Ela vem caminhando até min, pega minha mão, bota minha mão esquerda no seu rosto, e a direita em sua cintura. Agora fica olhando nos meus olhos enquanto eu narro, ela sorri um pouco, é realmente um sorriso lindo.
- Sentiu minha falta? – Ela diz de forma sarcástica balançando rapidamente a cabeça negativamente, mas ainda sorrindo.
- Sim. - Eu, Ângelo, o substituído do narrador preguiçoso digo.
- E agora? - Ela me pergunta.
- Eu não sei, vou perguntar pra meu narrador – Eu respondo pra ela.
Quando para o narrado ele esta fechando sua pasta e botando as paginas em branco dentro da bolsa de couro dele, com um adesivo do lado escrito: ‘’vai Tigers, rumo ao titulo’’.
- E agora narrador, o que nós faremos? – Eu pergunto para ele. E ele sem olhar pra nós me responde.
- Eu não faço a mínima ideia, se beijem e tal. – ele diz, e eu concordo. Olho pra ela e...

Tudo começa com eles se beijando, como qualquer romance. O primeiro que de todos. Aquele romance que começa sentado, pertinho um do outro, no sofá de lã. Durante a noite inteira. Mas isso não foi um romance, foi um piscar de olhos, foi um segundo, um minuto, uma hora, um dia...




Acabou.  Para gente.


Nota interessante ao leitor: Enquanto eu escrevia o ‘’terceiro pedaço’’, e me perdia nos detalhezinhos, imaginando cada coisinha, cada pedacinho de cena, cada quadro, minha comida que estava esquentando no forno, queimou, e eu fiquei com fome. Mas mesmo enjoado, comi biscoitos. E perdi meu peixe. Adoro peixe.   

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Mais uma janela




‘’Mais uma janela’’
Por: Junior Nodachi

Agora eu uso óculos, e enxergo embaçado, da pra ver o xadrez da parada e a letra corrida, velocista e arretada. Eu poderia limpar mais do que eu já limpo, mas a cada baforada ele embaça. Não que eu esteja reclamando, eu adoro essas baforadas. Todos sabem que a hora da baforada é uma hora sagrada.   

Quando você quer ver uma coisa diferente, você pode ver alguma coisa diferente. Pra que se limitar ao sonho, ao acontecimento inesperado? Eu gosto de transformar o que foi me dado, nesse caso enxergado. 
Horas posso ser um piloto de Caça, hora um motoqueiro apressado, um atirador de elite, um cientista, um advogado, um velho carrancudo, um cyborg quebrado, ou então ser só eu de óculos.

Agora eu peguei o ônibus certo, ajudou a não ficar embaçado. Sim, eu esperava mais. Um bocadinho e tal. Uma visão além do alcance, detalhes contornados, milhas de pixels enquadrados, uma mira. Mas estou ótimo, eu estou gato.

Eu gosto é quando embaça, fica tudo turvado, da pra fazer nuvem no céu, da pra fingir ser drogado. Ainda não me acostumei, ainda acho estranho, mas o que num é estranho hoje em dia? E se as pessoas mudam, coisa que eu não acredito, vamos mudar de novo, podemos ser quem nós quisermos. Hoje por exemplo eu sou um escrito falido de media idade, solitário, cheio de problemas de coluna, viciado em cigarro, e de sorriso bem humorado. Ando de chinelo e roupão o dia todo pela casa, litros de café tomados e sonos de horas e horas sonhados, pra digitar nem olho para o teclado. E sim, de meia idade, mas antenado, folha de papel é passado, sem falar que com óculos fica tudo borrado. E da pra ver que o texto está quase rimado. Como num cordelzinho, num poema, ou num verso cantado. 

Sorte no Jogo, azar no amor.




‘’Sorte no Jogo, azar no amor. Ou seria ao contrario?’’
Por: Junior Nodachi


Você pega um ás de espadas e um seis de ouro.  Você olha nos olhos do adversário e se pergunta se é amor ou jogo. Pra mim isso nunca deu certo, sempre foi jogo, nem sempre jogado, uma estratégia, é sim, tudo pensado, calculado, computado, é uma função sem resposta. É uma bosta.

Sorte? Eu nunca tive sorte, nunca pude me dar ao luxo de acreditar no destino, no universo, no pressentimento da vovó nem no choro do menino amarelo. Você conta as possibilidades, a probabilidade, as variáveis, se no final quiser calcular a sorte, calcule. Pode ser desconfiança, preocupação, mas pra quem nunca ganhou, não passa de gana.

Outra carta sai. Você olha, ré-olha, tré-olha. O cara da direita pisca o olho esquerdo, o da esquerda tem um tremor na mão, tremor involuntário, tremor do musculo, que ele nem sabe que tem. A aposta é feita, o sorriso ninguém tem, e se tiver é falso, sempre é falso, se acreditar você esta condenado.

A cor do cabelo dela é preto. Na verdade eu não reparei direito, é algo como preto, então é preto. Seus olhos? Pretos também. A cor da sua pele? Acho que é marrom, eu também sou meio marrom. Ela falava algo que eu não lembro. Dizia que eu não deveria acreditar em algo, e que eu deveria acreditar em outra coisa, que isso sim era verdade. Na verdade, eu nem prestei atenção. É melhor não prestar, pois eu tenho sorte é no jogo.

Aposto metade do meu dinheiro. Todos ainda me olham de forma desconfiada, um sorriso eu vejo, é meu sinal tão esperado, é calculado, cada passo dado, cada movimento estralado, cada engasgado com o conhaque quente, cada lábio molhado. Seu dedo coçou ou você esta mentindo? Isso vai depender da sua jogada. A aposta é coberta e outra carta lançada. A garganta gela, a mão é gelada, da pra sentir daqui, o frio emana pelas ventas, pelas fissuras, pelos poros, e tudo fica congela.

Ela me falou que eu tenho azar no amor e eu disse pra ela que tinha azar no jogo. Ela disse que não fazia sentido e me mandou embora, mas eu não fui embora, eu fiquei, eu sempre fico, pelo menos eu acho que fiquei. Eu até sairia, mas não sei a mão jogada, ela esconde as cartas, ela não treme, não pisca, não se mexe, elas esta morta. A única coisa viva é a palavra, a palavra fria da aposta pesada.

Aposto todo meu dinheiro. Essa foi a ultima carta. Todos olham de lado, um até desiste e assim o montante se engrandece. É muito olhar e pouca jogada, se você chegou até aqui, pra que desistir, faça, vá, avance, jogue, aposte, ela não aposta, mas você aposta, é um enganador nato, engane o destino, o passado, lute pela mesa, eu sou um mentiroso, um detalhista. Sim os detalhes fazem diferença. Mas como é o nome dela mesmo? Maria, talvez, ou Joana? Quem se importa, ela não é minhas cartas, ela não é nem minha. É alta ou baixa? A aposta eu sei que é alta, alta e arriscada. Eu lembro de um cheiro de fumaça, ela fuma? Ou é essa mesa molhada? Molhada e impregnada pelo cheiro dos charutos ricos e piratas.

As cartas são mostradas e as fichas são puxadas, meu dinheiro vai embora diante dos meus olhos, até meu relógio de ouro eu não irei levar pra casa. Maldito sorriso que me engana de novo. Casa... Eu tinha uma casa, não era minha, era dela, mas era boa, não como ela. Eu poderia voltar, bater em sua porta, mas eu não lembro onde ela mora, não reparei, só reparei nas suas costas, ela mostrava a alça do sutiã quando ia embora. Embora. Embora. Embora. E eu fiz o que? Eu apostei? Eu corri o risco? Eu apostei tudo? Não, que nada, pois só tenho sorte é no jogo.


Pode entrar




‘’Pode entrar’’
Por: Junior Nodachi


Sempre vão entrando de macinho, alguns com olhos tristes, outros não, alguns com passadas rápidas e olhadas frenéticas, e outros não. Assim eles vão deslizando, em movimentos graciosos pela chaparia de metal do ônibus, deslizam feito bailarinos em um palco de madeira, deslizam feito um ator em um teatro do interior, deslizando e vão deslizando, envolvendo a plateia. Muitos têm histórias, muitos contam histórias, muitos têm dores, muitos contam as dores, outros não fazem nada. Mas uma coisa eles tem em comum, todos deslizam até o fim do ônibus.

Você vê aqueles olhinhos apertados e logo fica com pena da pobre pessoa, fica logo revoltado pelo drogado, mas sempre sobem, sempre sobem. Poderiam estar matando, roubando, mas estão morrendo, morrendo, ou se matando, ou até nos roubando, que não seja diretamente, intencionalmente, que não seja nosso dinheiro em si, mas sempre estão levando algo de nós. Alguns levam nossa atenção, outros nossos trocados, alguns levam nossa alegria, outros levam um punhado de moedas, um punhado. Alguns levam a falsa alegria de uma vida boa e prospera, a paz, a magia, o amor, o beijo da guria, o sono da preguiça da tarde. Eles sempre levam algo.

O discurso começa sempre do mesmo jeito: ‘’eu fui, eu era, eu sou, eu podia, eu estaria, por favor, uma ajuda, uma ajuda, ajuda, socorro, eu pedia’’. Eu quero acordar, e ver que tem alguém do meu lado, eu quero dormi, e dormi bastante, isso me ilude pra caralho, mas como vou cochilar e sonhar? Se eles deslizam e deslizam devagar, e sempre levam alguma coisa. E você se sente sujo, egoísta, um ser incompleto, um ser indigno de viver entre os outros, é Darwin, é a lei, é a vida, e assim tua pequena, bem pequena alegria diminui, depois se encolhe, e ainda se aperta até sumir do alcance de seus olhos. Ai você lembra, lembra-se das coisas boas de novo, da alegria do dia, da magia e do beijo da guria de novo. Por quê? Porque eles deslizaram pra outro ônibus, mas eles sempre levam alguma coisa e sempre deixam alguma coisa. O discurso começa sempre do mesmo jeito: ‘’eu fui, eu era, eu sou, eu podia, eu estaria, por favor, uma ajuda, uma ajuda, ajuda, socorro, eu pedia’’.