terça-feira, 1 de maio de 2018

Medo, ódio, pedras, fagulhas e fogo






Medo, ódio, pedras, fagulhas e fogo, assim nasceu o homem. homo sapien, homem sapien, homem modernos, forjados no medo, alimentados com ódio, moldados com pedras e na mente fagulhas que ateiam fogo nas duvidas, gerando ideias.

Júlia olhou nos olhos de Jorge e disse: 
- Olha, não sei quanto tempo isso vai durar, pode durar um dia, pode durar pro resto da nossa vida, mas você nunca saberá se não assumir esse risco. 

Risco, rabiscos, pinturas rupestres, paredões egípcios, bíblias cristãs, literatura nórdica, textos, palavras, e assim o homem evoluiu, se comunica, aprende, vivi, trabalha.  Forjados na cultura, alimentados com pela escrita, moldados com a religião e na mente o risco, que são fagulhas que ateiam fogo nas duvidas, gerando ideias.

Júlia continuou:
- Dê uma chance a você mesmo! O máximo que pode acontecer é nós sermos felizes juntos.

 Quando todo mundo mente, quando o mundo inteiro mente, falar a verdade se torna um ato de revolução, um ato de amor.

- Eu não posso mais fazer as coisas pra você, não podemos um carregar o peso do outro nunca mais, mas eu posso te apoiar e estar do seu lado.

Jorge ficou imóvel, não entendia o que as palavras que saiam da boca de Júlia, para ele eram só grunhidos, ele jamais entendera um erro, um sobro que não fosse físico, um toque que não fosse na pele. Jorge era um homem, 
homem de Neandertal. Compartilha com os humanos atuais em 99,7 % do seu DNA.


Revela no entanto diferenças morfológicas significativas. Jorge, não sabia o que sentia por Júlia, Jorge não sabia o que sentia por si, jorge não sabia nada.
Era sofisticado em vários aspectos. Além de ferramentas, também usava o fogo, era bom caçador e já cuidou dos doentes.

 Visto como homem bruto, tipico Neandertal ariano, ser visto no imaginário popular como um ser grosseiro e pouco inteligente. Era de maior robustez física que o homem atual e tinha um 
cérebro ligeiramente mais volumoso. O cérebro do Homo sapiens sapiens tem um tamanho médio de 1400 cm³, enquanto o dos neandertais chegava a ter cerca de 1600 cm³. Então jorge tinha tanta consciência e inteligencia quanto Júlia, ele só não a compreendia.

Júlia olhou nos olhos de Jorge e disse mais uma vez:
- Eu vou estar sempre aqui. 

Alguns cientistas descrevem Jorge como um ser de considerável cultura, eventualmente sobrestimado por alguns autores. Muitas questões carecem de uma resposta conclusiva de Jorge a Júlia, sobretudo as relacionadas com a sua extinção.

Felicidade






— Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo uma pessoa mais bela do que eu. 
E o espelho respondia: 
— Em todo o mundo, meu querido rei, não existe beleza maior. 
O tempo passou.
— Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo pensamentos mais belos do que os  meus. 
E o espelho respondia: 
— Em todo o mundo, meu querido rei, não existe beleza maior. 
O tempo passou.
E com o tempo, o rei criou em dentro de seus salões, um mundo só dele, a cada parede do castelo, uma barreira para proteger a sua alteza. Mentia para sí sobre felicidade, amigos, amores, sobre sua segurança. Protegeu seu coração com um fosso, sua mente com os guardas, ergueu lanças e se trancou atrás das grossas portas de madeira. Acendeu a lareira e lá ficou, seguro, no seu mundo, no seu castelo. 
Era feliz, era amado, desejado, todos do castelo o ajudavam, e todos de fora o queriam, aceitavam sua opinião, respeitavam, ele vivia na crença de uma felicidade que jamais existiria para alguém que não fosse tão belo quando ele. Era o justo, era o que ele merecia por ser um rei tão maravilhoso, tão seguro e tão belo. E logo, toda tarde, enchia seu coração de felicidade e perguntava:
— Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo uma pessoa mais bela do que eu. 
E o espelho respondia: 
— No seu reino, o mais belo é você; mas Dona Neves é a mais bela do mundo. 
Louco de raiva, esmurrou o espelho, deixando-o em cacos. O rei saiu apressado em direção ao centro do reino. Desceu todas as escadas, abriu as portas e empurrou os guardas, desceu a ponte sobre o fosso e se manteve correndo. Lá chegando, ao ver Dona Neves, sofreu um ataque: o coração explodiu e o corpo estourou, tamanha era sua ira. Tamanha era sua raiva, tamanha era sua dúvida, tamanho era o seu medo, tamanha sua dor, tamanho era seu frio, tamanho era seu desespero.

O rei, com a cabeça confusa, pegara um pedaço de espelho de dentro das suas vestes reais e perguntara:
 — Espelho, espelho meu, diga-me se há no mundo uma pessoa mais confusa do que eu. 
— Em todo o mundo, meu querido rei, não existe maior. 
O tempo passou.
Porém, enquanto o rei agonizava sobre sua felicidade que jorrava da cratera do seu peito, os festejos não cessaram um só instante. Dona Neves, e os anões, convidados de honra, comeram, cantaram e dançaram três dias e três noites. Depois, retornaram para sua casinha e sua mina, no coração da mata. 



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

UM METRO E MEIO DE VARANDA


Um metro e meio de varanda... Com talvez um possível prolongamento e abertura de janelas com vedação acústica, privilegiando a iluminação e a ventilação. Um ótimo local para passar fins de tardes, tomar uma taça de vinho, namorar, ouvir música, ler um livro e apreciar a vista de uma gloriosa conquista.

Um metro e meio de varanda é onde todo o acumulo de esforço, determinação e coragem, colidem com seus sonhos de uma realidade alimentada. Uma faísca de esperança na espera de uma vida. Você nasce, conquista a vida e logo é lançado a guerra pela sobrevivência, sente dor, sente ódio, ama, é amado, sonha, trabalha e no fim idealiza seu futuro em 4,5m² de um espaço no céu. As proporções podem enganar quando pensamos que 4,5m² acomodaria muito bem um caixão de proporções normais, em um belo terreno gramado, cercado de vizinhos silenciosos e reservados. Mas 4,5m² é nosso sonho inverso a morte, nosso sonho de vida, fértil, desenvolvida e de sucesso. Nossa bela varanda de um metro e meio, espaço para um jardim vertical, a colocação de uma rede fofinha e confortável, uma churrasqueira para os mais arrojados e a esperança de que tudo valeu a pena. Recepcionar os amigos, comemorar a passagem do ano, o sexo depois de algumas cervejas na volta de um show. O céu terreno de qualquer religião divido em suaves parcelas de uma parte da sua dor.

Da nossa bela varanda de um metro e meio vemos todos os tipos de pessoas, bem embaixo de nossos pés, nos da poder, nos da gula, nos torna melhores do que qualquer outro aspirante a conquistador que já fomos um dia. Luzes incandescentes dão um toque vintage, enquanto leds embutidos dão a sofisticação de um futuro moderno. As cortinas devem sempre estarem entre as duas perspectivas de tons da sala, de dentro pra fora e de fora pra dentro, essa harmonia é rara, mas com um pouco mais de esforços e alguns acréscimos nas prestações e tudo se acerta.


E lá vivemos, no céu, fora do chão onde o bicho homem, luta, sente dor, sente ódio, ama, é amado, sonha, trabalha. Estamos aqui, confortáveis, apreciando o por do sol, e a sua espera. 

terça-feira, 3 de maio de 2016

Chorando areia no inferno seco


- Eu sou uma longa história. – Dizia o pecado ao pecador. Enquanto ele pensava, olhava, refletia na mais simples verdade errônea da sua vida. Pensava no medo de mais uma vez viver nas cavernas subterrâneas da solidão escura. Algo muito filosófico pra uma história tão longa.
- Todos querem novas chances, maquinas do tempo, salvações, perdões, solução. – Dizia mais uma vez o pecado de cara magra, ralo e esquelético, como a dor presente em seus olhos fundos de vida não mais incandescente.
Tocava o pecador no ombro com seus dedos magros e frios, e o pedia para levantar-se, de forma misericordiosa e melancólica. O pecador se levantou, não por querer levantar, a vergonha lhe consumia, nutria-se do passado da virtude de uma vida, assim como o pecado que bebia seu sangue e alma a cada olhar, tentando de uma só vez, sugar de tal forma tudo que fora construído de bom pelo pecador a ponto de deixa-lo corado e forte.
- Pague-me, o que deveres ao mundo! Pague-me o que deveres a mim! – Bravejava o pecado, cuspindo sua saliva mais seca na cada do pecador. – Pague-me enquanto tem alma, e aceite sua pena, pague-me! Aceite que não será mais o mesmo, será magro como eu, feio como eu e assim permanecera até um outro alguém pecar. Pague sua pena, e espere o troco, a revanche, a troca. Espere como eu esperei o dia em que sentirá a dor que o pecado que você gerou ser gerada contra você, e só ai estará livre a se nutrir de coisas boas novamente. Espere a traição que infligira, espere a morte que causara, espere as lagrimas que derramaram te banharem como uma tempestade, até que seu coração se aperte com tal força que seu átrio seja seu ventrículo e que seu ventrículo seja sua aorta. E só ai, neste momento de dor inigualável, morra. – completou o pecado.

- Eu não queria ver, eu sei o que fiz, e sei o que virá, sei que virá dor, e que será forte. Não adianta me redimir a tua benevolência e compreensão, pois meus argumentos são vazios, são pequenos, assim como meus atos. Permanecerei no inferno descrito por Dante, e de lá só sairei puxado pelo braço por você, que lá um dia eu gerei, dentro de mim, ó Pecado, como um filho. – Disse o pecador apertado o braço do pecado, enquanto seus olhos afundavam juntamente com seus ossos afinando.

- Eu sou teu filho, nascido de te, e do teu lado permanecerei a te atormentar pelo teu erro. Não seras perdoado, pai, não seras confiável, pai, irá ser traído e humilhado, pois é o que merece, pai, aceite, ó pai. Achas mesmo que alguém te dará a mão? Que te tirará daqui e te abraçará? Entendes a gravidade que infligira? Entendes que seu amor não vale de nada aqui e sua esperança irá se dissipar a cada dia? Parece que não entendes sua real situação, pai. Aqui está, a cadeira de carvão que construí pra te, senta-te e espera. Quem sabe daqui de quatro a seis anos ou de quatro a seis vidas possa nutrice novamente do que Ela emanava – Disse o pecado, enquanto seu rosto vermelho e saudável da virtude que se nutriu, brilhava a luz do fogo enquanto o pecador respirava medo e chorava areia.



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Salmão. O peixe.



Dizem que ótimos textos nascem de mentes perturbadas, eu não discordo disso, mas que tal de mentes cansadas? Será que algo poderia ser aproveitado do esgotamento psicológico de um ser humano posto a uma tentativa diária de sobreviver?
Muitos podem achar que os merecedores de serem chamados sobreviventes são aqueles  que passaram por um mal devastador, por grande doença, pela perda de tudo que tinham. Entretanto pra esse mero escrito cansado, um sobrevivente é quem acorda cedo, levanta, da um beijo na pessoa que ama, e sai mundo a fora pra ser um ninguém pra as outras pessoas. Nem todos esses sobreviventes são ninguém, todos são ou foram amados, tem coragem, medos, sonhos, alegrias e tristezas. Todos tem o olho preso em alguma parte do tempo, andam pra trás, para frente. Todos tem o sonho de que um dia tudo isso chegará realmente ao final, e todas as suas anciãs sumirão, e uma euforia nostálgica de bem estar tomará o seu lugar, dando asas a sua imaginação e o fazendo desfrutar do seu tão sonhado momento de sombra metal.

 Hoje mais uma vez eu briguei com minha namorada. Sim, eu não sou tão velho pra chama-la de minha mulher, nem tão novo pra deixa-la fora da história como alguém que não faz parte dos meus pensamentos. Nós brigamos por causa de um Salmão, e é esse peixe que vem a tona na hora de separar a importância de cada partícula de matéria que compõem esses merecedores.
É uma analise meio simplista, quase antiquada aos padrões que estamos acostumados. Querendo ou não, eu não sou um homem tão pobre a ponto de estar escrevendo sobre minhas desventuras e caminhos que me tornaram um homem sábio e vivido, ou um empreendedor que faturou todos os sonhos populares e agora esta dando aos outros seus do passado a formula pra chegar nesse castelo do futuro. Eu sou só um cara, que não tinha uma maneira mais verdadeira de se expressar do que escrever as ideias que se passavam em sua cabeça.

 Ela deveria estar com aqueles olhos bravos, achando que eu não entendo o que ela diz, mas eu entendo, eu quero que ela diga. Assim os merecedores poderão ver que eu sou um afortunado de tê-la. Quando você para em um ponto de ônibus repleto de pessoas desconhecidas, humanas, com seus dramas, com seus problemas, com suas alegrias, você se pergunta quantas delas já comeram Salmão, pra alguns pode ser só um peixe, mas pra mim é uma barreira fundamental entre a verdade de um universo criacionista ou uma teoria evolutiva de ponta. Quando você se espreme na porta do ônibus e sente o suor escorrer por suas costas, quando você paga por aquele serviço de condução baixo e degradante, ai você se pergunta quantas daquelas pessoas que estão ali como você já comeram Salmão.

 Eu já comi Salmão, uma vez, na verdade eu nem lembro seu gosto, só sua cor, cor de Salmão. Tão imponente que tem uma cor só pra ele, você não ver cores Manoeis, Joaquins, Marias, Olivias, mas você sabe que ter uma cor só do Salmão. Será que por um Salmão ela voltaria a sorrir pra mim essa noite? Acho que não. Nem todos são simplistas como o Salmão, pois o Salmão pra o próprio Salmão, não é nada, nem é um nome, nem uma cor, nem uma barreira, o Salmão não existe pro Salmão, assim como as vezes a grande maioria das pessoas não existe paras as outras, e assim todos andam retos, alguns nadam contra a correnteza como o Salmão, alguns são desejados como o Salmão, mas quantos comem o Salmão?

domingo, 11 de novembro de 2012

O vômito




‘’O vômito’’
Por: Junior Nodachi

O recreio é uma hora especial em minha vida, faz tudo valer a pena, todas as outras horas terem significado. Quando o sinal bate, eu sou sempre o primeiro a correr, mesmo quando não tinha sinal.
Eu adoro o recreio. São quinze minutos de diversão ilimitada. E pensa que a dois minutos atrás eu estava comendo iogurte, leite achocolatado, biscoitos e meio sanduíche.
Agora estou aqui, correndo e correndo pelo parquinho, girando e brincando nesses belos e pintados coloridamente brinquedos indutores de vômito.
Essa é a única hora que consigo ficar sozinho na escola. É uma hora boa.   

O apagado




Quem viu, viu, quem não viu, não viu. e fim. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Rapadura




Orgulho é que nem a véia, rapadura também é igual ela: é doce mais num é mole. Ôh que bicha véia. Eu sou nordestino, baiano, alagoano, sergipano. Eu sou da roça, sou da seca do norte, nordeste, da peste e cabra. Eu digo oxê, ela diz oxênte, eu digo arri, ela diz arriégua. Nega namoradeira, se ilumina a luz de lamparina na janela, por que hoje num tem fogueira, mas num deixa o pai dela ver, só pensa em namorar.  A flor de mandacaru desabrocha ao alvorecer. Menina, nem é mulher, pensa que sabe o que quer. Nem sabe, falaram pra ela. É rapadura, doce, mas num é mole. Mês de junho vem ai, saia a rodar, mulé direita, é risco na ribanceira, oxê, nega! É que nem a véia, rapadura também é igual. Uma preta nordestina, um calor que queimar nos zoios, e o vento soprou e a folha caiu, que noite chegou fazendo frio. É mel com limão. Mas o toque que acaricia quando a gota do limão cai no olho denuncia. E nós num cansa, cava, afofa, liga, trabalha, lavra, eu num sabia, só sabia dançar, mas nem agradeci, depois agradeci, se um deus deu, do que adianta eu num acreditar. Tem bolo de mandioca, de milho verde, recorte na dança, aprecio o clima da roça, reuni a família. Mulé rapadura, só quebra no dente da gente, ou quebra o dente da gente, tem que saber lidar, num é iguaria do sul, é da terra, mas exporta igual uma porta, é dura. E rima Junior com junina em junho, oxênte. Rapadura é mais doce que mel, mas num é mole.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um morto





‘’Uma morte ‘’
Por Junior Nodachi


Numa manhã qualquer de um mês qualquer, a porta se abria em um edifício qualquer da rua qualquer coisa. La estava ele, deitado, com a silhueta mórbida e os olhos abertos, parados. Suas mãos estavam presas na cabeceira da cama, presas com seu cinto e com um cadarço do seu sapato Oxford 43, que ganhou de sua filha no natal do ano passado. As pernas brancas cheias de pelos e a barriga inchada e dura de tanta cerveja e churrasco nos finais de semana lhe davam um ar sedentário, preguiçoso. O relógio marcava 09:35hs, o relógio branco com pulseira de alumínio brilhava na primeiras rajadas de sol que entrava no quarto abafado do Hotel Qualquer um, de três estrelas. As cortinas vermelhas eram puxadas lentamente pela paramédica. Junto dela no quarto ainda tinham mais dois paramédicos, três policias, o gerente do hotel, uma mulher que aparenta certo desconforto, e uma montanha de curiosos e repórteres na porta do quarto 406.
O corredor que normalmente era o recanto perfeito da camareira Odete fumar seu cigarro depois de limpar o primeiro quarto do dia, estava lotado, lotado como o metrô que ela tem que pegar todo dia as seis a sete da noite. Todos falando um por cima do outro. Ela nunca vera tantas câmeras juntas em um só lugar. Pensando bem teve aquela vez no casamento de sua irmã, mas em um quarto de hotel era a primeira vez. Ao continua olhar ela se perguntava se era nesse clima e com tantos aparatos que são filmados os filmes eróticos. Filmes que por sua vez habitavam bastante o quarto do filho. No entender dela seu filho poderia facilmente se tornar um belo critico de cinema um dia.

‘’Traga-me um café! ‘’ – foi o que um senhor engravatado gritou  pra ela quando passou pela mesma no corredor em direção ao quarto. Ela nem se móvel, não era paga pra pegar café pra ninguém, não pegava pra seu marido, iria pegar pra o marido das outras. Era uma orgulhosa. Cada pessoa no corredor tinha uma versão diferente do que tinha acontecido dentro do quarto 406. Alguns falavam em suicídio, outros em assassinato, ou overdose, ou até em grande encenação. Ninguém sabia ao certo quem era aquele senhor amarrado na cama, não sabiam quem era, mas sabiam que era um senhor, e pelas roupas jogadas no chão ela percebeu que não era um senhor qualquer. Não imaginaria seu marido passando a noite em um hotel vestido daquele jeito. E quanto tempo que ela não vai a um hotel com seu marido. José andava sempre ocupado, e chegava cansado demais pra propor uma diversão longe de casa. E hotéis pra ela lembrava trabalho então tratou de tirar logo isso da cabeça.  
- Diga Edgar, do que ele morreu?
- Não sabemos ainda, n motivos.
- Pelo menos podemos descartar homicídio, ou suicídio.
- Isso é só a pericia que vai constatar. Mas eu aposto vinte reais que foi algum problema no coração.
- Apostado. Acho que foi obra da mulher.  – E assim a equipe trabalhava, trabalhava isolando o local (o ‘’perímetro’’, adoravam essa palavra), acalmando os repórteres, e tratando de descobrir quem era aquele homem.

Já tinha sua carteira, ele se chama Qualquer Coisa Soares de Pascoa. E tinha qualquer coisa como profissão, e por sinal um cargo bem tanto faz. Sabiam também que eles estava com uma prostituta, ou uma garota de programa, cada um chamava a seu modo. A equipe técnica preferia ‘’ La puta’’, por algum motivo. Ela contara que foi um trabalho bem normal, nada diferente do que ela passava as noites fazendo, quando chegou ao quarto ele estava lá pra recebê-la na porta. Já estava de roupão, e com seu bigode preto que chama bastante atenção. Confessa que espera alguém mais novo dessa vez, mas nada lhe fugia do costume das noites. Era bastante comum pra ela esse tipo, velhos, homens de meia idade, solitários, alguns jovens às vezes, mas nem era tão nova mais. Disse que fez tudo que ele pediu, ele mandava, estava pagando, é assim que as coisas são. Ela fez o serviço completo, e tudo bem sujo, assim como ele pedia. Até a hora que ele pediu para amarrar ela, que por sua vez ela não deixou. Assim ele mudou a proposta, pedindo para ser amarado, e foi ali amarado mediante ao ato sexual que ela percebeu que ele já não se mexia, nem esboçava reação, foi quando ela chamou o gerente e toda essa aglomeração começou.

A mulher continuava sentando na cadeira, e não conseguia tirar os olhos daquele corpo que ali se encontrava. Não era nem de longe mais perturbador do que metade das coisas que ela já vira nas noites. Mas a situação tinha tomado um rumo que lhe assustava. Ela era a prova viva de que sempre sobra para o lado mais fraco da corda, e esse lado era ela, isso a deixa em uma concentração acima do normal, a deixava atenta a todos os detalhes da sala. Mas o que realmente lhe incomodava era o fato daqueles repórteres sangue sujas estarem ali se aproveitando de sua desgraça, provavelmente se promovendo sobre suas ruinas.   E estavam mesmo, entre um novato no ramo, André Nunes, aluno muito aplicado, e na segunda semana de trabalho ao lado do promissor repórter do Noticias da cidade, Arnaldo Santos. Um ícone, quase um ídolo do jornalismo local de impacto.

E mediante ao encontro, a reunião de profissionais naquele quarto, lá estava ele, deitado olhando pra cima, com um sorriso ainda na cara, bem embaixo do seu bigode preto e volumoso, a bebida ainda estava no criado-mudo, e o charuto ainda estava em sua mão, entre seus dedos. E de lá a cena se emoldurava, se pintava, se eternizava no flash das câmeras de nova e velha geração. Cenas paradas. Que na manhã seguinte ganharam a capa do Noticias da cidade, com direito a duas folhas de centro falando sobre o assunto. Uma foto de seu sorriso, e uma de quadro geral. Todas embaixo de um belo trecho, um belo titulo, que até opobre bigodudo parecia se agradar bastante. Morreu, nem chegou a acordar... ‘’Morreu como todo homem deveria morrer, Morreu fudendo!’’.         
          

domingo, 23 de setembro de 2012

Poetas mortos não falam




‘’Mortos não falam’’
Por: Junior Nodachi

Não basta sermos conduzidos pela maré, levados pelo vento, ou arrastados pela estrada. Somos homem, somos poetas, cantores sambistas, somos uma sociedade de poetas mortos. Vivemos com a necessidade de entender, e desfrutar do entendido, a necessidade de enxergar as formas esculturais das coisas, de transmitir em palavras o que não conseguimos em gestos, pois somos poetas. Não poetas comuns, pois não existem poetas comuns, não pegamos e lemos, vivemos, escolhemos e transformamos. Vamos colher o dia, aproveitar o momento, é o mais concentrado teor de carpe diem que transbordas dos nossos poros e é expulso de nossa garganta cansada de tanto beber.

Somos conquistadores, nós podemos tudo, fazemos o que queremos, aproveitamos o momento, vivemos o momento, aproveitar, aproveitar, aproveitar, aproveitamos. Nós queremos esses momentos para sempre. Não como poetas, queremos como homens, como uma sociedade. Podemos, passamos, essa é a ideia de que iremos realizar todos os seus desejos, todos os sonhos. Fazemos o impossível possível, andamos na corda banda, no limite da vida, vivemos morrendo a cada dia a cada passo, andamos na calçada ou na rua. Vamos ama-la como única, vamos lhe levar para o caminho do mal, para o caminha do momento, faremos você escrever seu caminho. Mas não é só escrever, é ler o que esta escrito até fixar, até transcender o papel e se tornar você. Façamos nosso próprio caminho, sozinhos ou não. De mãos dadas com nossas conquistadas ou não. Não sejam tímidas, venham, venham nos conquistar, venham aproveitar seus momentos com nós. Esqueça os outros, nós seremos os outros e nós mesmos. Seremos os olhos, a boca, as mãos, venha dormir comigo, venha correr comigo, venham ler e escrever seu caminho. Vamos surpreender o mundo se vocês quiserem. Vamos aproveitar, aproveitar esse momento, esse momento. Carpe diem minha querida.