terça-feira, 3 de maio de 2016

Chorando areia no inferno seco


- Eu sou uma longa história. – Dizia o pecado ao pecador. Enquanto ele pensava, olhava, refletia na mais simples verdade errônea da sua vida. Pensava no medo de mais uma vez viver nas cavernas subterrâneas da solidão escura. Algo muito filosófico pra uma história tão longa.
- Todos querem novas chances, maquinas do tempo, salvações, perdões, solução. – Dizia mais uma vez o pecado de cara magra, ralo e esquelético, como a dor presente em seus olhos fundos de vida não mais incandescente.
Tocava o pecador no ombro com seus dedos magros e frios, e o pedia para levantar-se, de forma misericordiosa e melancólica. O pecador se levantou, não por querer levantar, a vergonha lhe consumia, nutria-se do passado da virtude de uma vida, assim como o pecado que bebia seu sangue e alma a cada olhar, tentando de uma só vez, sugar de tal forma tudo que fora construído de bom pelo pecador a ponto de deixa-lo corado e forte.
- Pague-me, o que deveres ao mundo! Pague-me o que deveres a mim! – Bravejava o pecado, cuspindo sua saliva mais seca na cada do pecador. – Pague-me enquanto tem alma, e aceite sua pena, pague-me! Aceite que não será mais o mesmo, será magro como eu, feio como eu e assim permanecera até um outro alguém pecar. Pague sua pena, e espere o troco, a revanche, a troca. Espere como eu esperei o dia em que sentirá a dor que o pecado que você gerou ser gerada contra você, e só ai estará livre a se nutrir de coisas boas novamente. Espere a traição que infligira, espere a morte que causara, espere as lagrimas que derramaram te banharem como uma tempestade, até que seu coração se aperte com tal força que seu átrio seja seu ventrículo e que seu ventrículo seja sua aorta. E só ai, neste momento de dor inigualável, morra. – completou o pecado.

- Eu não queria ver, eu sei o que fiz, e sei o que virá, sei que virá dor, e que será forte. Não adianta me redimir a tua benevolência e compreensão, pois meus argumentos são vazios, são pequenos, assim como meus atos. Permanecerei no inferno descrito por Dante, e de lá só sairei puxado pelo braço por você, que lá um dia eu gerei, dentro de mim, ó Pecado, como um filho. – Disse o pecador apertado o braço do pecado, enquanto seus olhos afundavam juntamente com seus ossos afinando.

- Eu sou teu filho, nascido de te, e do teu lado permanecerei a te atormentar pelo teu erro. Não seras perdoado, pai, não seras confiável, pai, irá ser traído e humilhado, pois é o que merece, pai, aceite, ó pai. Achas mesmo que alguém te dará a mão? Que te tirará daqui e te abraçará? Entendes a gravidade que infligira? Entendes que seu amor não vale de nada aqui e sua esperança irá se dissipar a cada dia? Parece que não entendes sua real situação, pai. Aqui está, a cadeira de carvão que construí pra te, senta-te e espera. Quem sabe daqui de quatro a seis anos ou de quatro a seis vidas possa nutrice novamente do que Ela emanava – Disse o pecado, enquanto seu rosto vermelho e saudável da virtude que se nutriu, brilhava a luz do fogo enquanto o pecador respirava medo e chorava areia.



quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Salmão. O peixe.



Dizem que ótimos textos nascem de mentes perturbadas, eu não discordo disso, mas que tal de mentes cansadas? Será que algo poderia ser aproveitado do esgotamento psicológico de um ser humano posto a uma tentativa diária de sobreviver?
Muitos podem achar que os merecedores de serem chamados sobreviventes são aqueles  que passaram por um mal devastador, por grande doença, pela perda de tudo que tinham. Entretanto pra esse mero escrito cansado, um sobrevivente é quem acorda cedo, levanta, da um beijo na pessoa que ama, e sai mundo a fora pra ser um ninguém pra as outras pessoas. Nem todos esses sobreviventes são ninguém, todos são ou foram amados, tem coragem, medos, sonhos, alegrias e tristezas. Todos tem o olho preso em alguma parte do tempo, andam pra trás, para frente. Todos tem o sonho de que um dia tudo isso chegará realmente ao final, e todas as suas anciãs sumirão, e uma euforia nostálgica de bem estar tomará o seu lugar, dando asas a sua imaginação e o fazendo desfrutar do seu tão sonhado momento de sombra metal.

 Hoje mais uma vez eu briguei com minha namorada. Sim, eu não sou tão velho pra chama-la de minha mulher, nem tão novo pra deixa-la fora da história como alguém que não faz parte dos meus pensamentos. Nós brigamos por causa de um Salmão, e é esse peixe que vem a tona na hora de separar a importância de cada partícula de matéria que compõem esses merecedores.
É uma analise meio simplista, quase antiquada aos padrões que estamos acostumados. Querendo ou não, eu não sou um homem tão pobre a ponto de estar escrevendo sobre minhas desventuras e caminhos que me tornaram um homem sábio e vivido, ou um empreendedor que faturou todos os sonhos populares e agora esta dando aos outros seus do passado a formula pra chegar nesse castelo do futuro. Eu sou só um cara, que não tinha uma maneira mais verdadeira de se expressar do que escrever as ideias que se passavam em sua cabeça.

 Ela deveria estar com aqueles olhos bravos, achando que eu não entendo o que ela diz, mas eu entendo, eu quero que ela diga. Assim os merecedores poderão ver que eu sou um afortunado de tê-la. Quando você para em um ponto de ônibus repleto de pessoas desconhecidas, humanas, com seus dramas, com seus problemas, com suas alegrias, você se pergunta quantas delas já comeram Salmão, pra alguns pode ser só um peixe, mas pra mim é uma barreira fundamental entre a verdade de um universo criacionista ou uma teoria evolutiva de ponta. Quando você se espreme na porta do ônibus e sente o suor escorrer por suas costas, quando você paga por aquele serviço de condução baixo e degradante, ai você se pergunta quantas daquelas pessoas que estão ali como você já comeram Salmão.

 Eu já comi Salmão, uma vez, na verdade eu nem lembro seu gosto, só sua cor, cor de Salmão. Tão imponente que tem uma cor só pra ele, você não ver cores Manoeis, Joaquins, Marias, Olivias, mas você sabe que ter uma cor só do Salmão. Será que por um Salmão ela voltaria a sorrir pra mim essa noite? Acho que não. Nem todos são simplistas como o Salmão, pois o Salmão pra o próprio Salmão, não é nada, nem é um nome, nem uma cor, nem uma barreira, o Salmão não existe pro Salmão, assim como as vezes a grande maioria das pessoas não existe paras as outras, e assim todos andam retos, alguns nadam contra a correnteza como o Salmão, alguns são desejados como o Salmão, mas quantos comem o Salmão?

domingo, 11 de novembro de 2012

O vômito




‘’O vômito’’
Por: Junior Nodachi

O recreio é uma hora especial em minha vida, faz tudo valer a pena, todas as outras horas terem significado. Quando o sinal bate, eu sou sempre o primeiro a correr, mesmo quando não tinha sinal.
Eu adoro o recreio. São quinze minutos de diversão ilimitada. E pensa que a dois minutos atrás eu estava comendo iogurte, leite achocolatado, biscoitos e meio sanduíche.
Agora estou aqui, correndo e correndo pelo parquinho, girando e brincando nesses belos e pintados coloridamente brinquedos indutores de vômito.
Essa é a única hora que consigo ficar sozinho na escola. É uma hora boa.   

O apagado




Quem viu, viu, quem não viu, não viu. e fim. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Rapadura




Orgulho é que nem a véia, rapadura também é igual ela: é doce mais num é mole. Ôh que bicha véia. Eu sou nordestino, baiano, alagoano, sergipano. Eu sou da roça, sou da seca do norte, nordeste, da peste e cabra. Eu digo oxê, ela diz oxênte, eu digo arri, ela diz arriégua. Nega namoradeira, se ilumina a luz de lamparina na janela, por que hoje num tem fogueira, mas num deixa o pai dela ver, só pensa em namorar.  A flor de mandacaru desabrocha ao alvorecer. Menina, nem é mulher, pensa que sabe o que quer. Nem sabe, falaram pra ela. É rapadura, doce, mas num é mole. Mês de junho vem ai, saia a rodar, mulé direita, é risco na ribanceira, oxê, nega! É que nem a véia, rapadura também é igual. Uma preta nordestina, um calor que queimar nos zoios, e o vento soprou e a folha caiu, que noite chegou fazendo frio. É mel com limão. Mas o toque que acaricia quando a gota do limão cai no olho denuncia. E nós num cansa, cava, afofa, liga, trabalha, lavra, eu num sabia, só sabia dançar, mas nem agradeci, depois agradeci, se um deus deu, do que adianta eu num acreditar. Tem bolo de mandioca, de milho verde, recorte na dança, aprecio o clima da roça, reuni a família. Mulé rapadura, só quebra no dente da gente, ou quebra o dente da gente, tem que saber lidar, num é iguaria do sul, é da terra, mas exporta igual uma porta, é dura. E rima Junior com junina em junho, oxênte. Rapadura é mais doce que mel, mas num é mole.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Um morto





‘’Uma morte ‘’
Por Junior Nodachi


Numa manhã qualquer de um mês qualquer, a porta se abria em um edifício qualquer da rua qualquer coisa. La estava ele, deitado, com a silhueta mórbida e os olhos abertos, parados. Suas mãos estavam presas na cabeceira da cama, presas com seu cinto e com um cadarço do seu sapato Oxford 43, que ganhou de sua filha no natal do ano passado. As pernas brancas cheias de pelos e a barriga inchada e dura de tanta cerveja e churrasco nos finais de semana lhe davam um ar sedentário, preguiçoso. O relógio marcava 09:35hs, o relógio branco com pulseira de alumínio brilhava na primeiras rajadas de sol que entrava no quarto abafado do Hotel Qualquer um, de três estrelas. As cortinas vermelhas eram puxadas lentamente pela paramédica. Junto dela no quarto ainda tinham mais dois paramédicos, três policias, o gerente do hotel, uma mulher que aparenta certo desconforto, e uma montanha de curiosos e repórteres na porta do quarto 406.
O corredor que normalmente era o recanto perfeito da camareira Odete fumar seu cigarro depois de limpar o primeiro quarto do dia, estava lotado, lotado como o metrô que ela tem que pegar todo dia as seis a sete da noite. Todos falando um por cima do outro. Ela nunca vera tantas câmeras juntas em um só lugar. Pensando bem teve aquela vez no casamento de sua irmã, mas em um quarto de hotel era a primeira vez. Ao continua olhar ela se perguntava se era nesse clima e com tantos aparatos que são filmados os filmes eróticos. Filmes que por sua vez habitavam bastante o quarto do filho. No entender dela seu filho poderia facilmente se tornar um belo critico de cinema um dia.

‘’Traga-me um café! ‘’ – foi o que um senhor engravatado gritou  pra ela quando passou pela mesma no corredor em direção ao quarto. Ela nem se móvel, não era paga pra pegar café pra ninguém, não pegava pra seu marido, iria pegar pra o marido das outras. Era uma orgulhosa. Cada pessoa no corredor tinha uma versão diferente do que tinha acontecido dentro do quarto 406. Alguns falavam em suicídio, outros em assassinato, ou overdose, ou até em grande encenação. Ninguém sabia ao certo quem era aquele senhor amarrado na cama, não sabiam quem era, mas sabiam que era um senhor, e pelas roupas jogadas no chão ela percebeu que não era um senhor qualquer. Não imaginaria seu marido passando a noite em um hotel vestido daquele jeito. E quanto tempo que ela não vai a um hotel com seu marido. José andava sempre ocupado, e chegava cansado demais pra propor uma diversão longe de casa. E hotéis pra ela lembrava trabalho então tratou de tirar logo isso da cabeça.  
- Diga Edgar, do que ele morreu?
- Não sabemos ainda, n motivos.
- Pelo menos podemos descartar homicídio, ou suicídio.
- Isso é só a pericia que vai constatar. Mas eu aposto vinte reais que foi algum problema no coração.
- Apostado. Acho que foi obra da mulher.  – E assim a equipe trabalhava, trabalhava isolando o local (o ‘’perímetro’’, adoravam essa palavra), acalmando os repórteres, e tratando de descobrir quem era aquele homem.

Já tinha sua carteira, ele se chama Qualquer Coisa Soares de Pascoa. E tinha qualquer coisa como profissão, e por sinal um cargo bem tanto faz. Sabiam também que eles estava com uma prostituta, ou uma garota de programa, cada um chamava a seu modo. A equipe técnica preferia ‘’ La puta’’, por algum motivo. Ela contara que foi um trabalho bem normal, nada diferente do que ela passava as noites fazendo, quando chegou ao quarto ele estava lá pra recebê-la na porta. Já estava de roupão, e com seu bigode preto que chama bastante atenção. Confessa que espera alguém mais novo dessa vez, mas nada lhe fugia do costume das noites. Era bastante comum pra ela esse tipo, velhos, homens de meia idade, solitários, alguns jovens às vezes, mas nem era tão nova mais. Disse que fez tudo que ele pediu, ele mandava, estava pagando, é assim que as coisas são. Ela fez o serviço completo, e tudo bem sujo, assim como ele pedia. Até a hora que ele pediu para amarrar ela, que por sua vez ela não deixou. Assim ele mudou a proposta, pedindo para ser amarado, e foi ali amarado mediante ao ato sexual que ela percebeu que ele já não se mexia, nem esboçava reação, foi quando ela chamou o gerente e toda essa aglomeração começou.

A mulher continuava sentando na cadeira, e não conseguia tirar os olhos daquele corpo que ali se encontrava. Não era nem de longe mais perturbador do que metade das coisas que ela já vira nas noites. Mas a situação tinha tomado um rumo que lhe assustava. Ela era a prova viva de que sempre sobra para o lado mais fraco da corda, e esse lado era ela, isso a deixa em uma concentração acima do normal, a deixava atenta a todos os detalhes da sala. Mas o que realmente lhe incomodava era o fato daqueles repórteres sangue sujas estarem ali se aproveitando de sua desgraça, provavelmente se promovendo sobre suas ruinas.   E estavam mesmo, entre um novato no ramo, André Nunes, aluno muito aplicado, e na segunda semana de trabalho ao lado do promissor repórter do Noticias da cidade, Arnaldo Santos. Um ícone, quase um ídolo do jornalismo local de impacto.

E mediante ao encontro, a reunião de profissionais naquele quarto, lá estava ele, deitado olhando pra cima, com um sorriso ainda na cara, bem embaixo do seu bigode preto e volumoso, a bebida ainda estava no criado-mudo, e o charuto ainda estava em sua mão, entre seus dedos. E de lá a cena se emoldurava, se pintava, se eternizava no flash das câmeras de nova e velha geração. Cenas paradas. Que na manhã seguinte ganharam a capa do Noticias da cidade, com direito a duas folhas de centro falando sobre o assunto. Uma foto de seu sorriso, e uma de quadro geral. Todas embaixo de um belo trecho, um belo titulo, que até opobre bigodudo parecia se agradar bastante. Morreu, nem chegou a acordar... ‘’Morreu como todo homem deveria morrer, Morreu fudendo!’’.         
          

domingo, 23 de setembro de 2012

Poetas mortos não falam




‘’Mortos não falam’’
Por: Junior Nodachi

Não basta sermos conduzidos pela maré, levados pelo vento, ou arrastados pela estrada. Somos homem, somos poetas, cantores sambistas, somos uma sociedade de poetas mortos. Vivemos com a necessidade de entender, e desfrutar do entendido, a necessidade de enxergar as formas esculturais das coisas, de transmitir em palavras o que não conseguimos em gestos, pois somos poetas. Não poetas comuns, pois não existem poetas comuns, não pegamos e lemos, vivemos, escolhemos e transformamos. Vamos colher o dia, aproveitar o momento, é o mais concentrado teor de carpe diem que transbordas dos nossos poros e é expulso de nossa garganta cansada de tanto beber.

Somos conquistadores, nós podemos tudo, fazemos o que queremos, aproveitamos o momento, vivemos o momento, aproveitar, aproveitar, aproveitar, aproveitamos. Nós queremos esses momentos para sempre. Não como poetas, queremos como homens, como uma sociedade. Podemos, passamos, essa é a ideia de que iremos realizar todos os seus desejos, todos os sonhos. Fazemos o impossível possível, andamos na corda banda, no limite da vida, vivemos morrendo a cada dia a cada passo, andamos na calçada ou na rua. Vamos ama-la como única, vamos lhe levar para o caminho do mal, para o caminha do momento, faremos você escrever seu caminho. Mas não é só escrever, é ler o que esta escrito até fixar, até transcender o papel e se tornar você. Façamos nosso próprio caminho, sozinhos ou não. De mãos dadas com nossas conquistadas ou não. Não sejam tímidas, venham, venham nos conquistar, venham aproveitar seus momentos com nós. Esqueça os outros, nós seremos os outros e nós mesmos. Seremos os olhos, a boca, as mãos, venha dormir comigo, venha correr comigo, venham ler e escrever seu caminho. Vamos surpreender o mundo se vocês quiserem. Vamos aproveitar, aproveitar esse momento, esse momento. Carpe diem minha querida.

O desejo da desejada



‘’Desejo’’
Por: Junior Nodachi


Será que era só desejo? O que era essa inocência que ela relatava nos seus cadernos? Ela queria caminhar mais um pouco, caminhava pra afastar o desejo. Mas que desejo? É de sexo que estamos falando? Talvez. Ela via como algo mais, sexo por sexo ela já tinha feito, não havia motivo pra tal reflexão em uma caminha noturna.
Ela queria a confiança dele tocando ela, ela queria ser usada, ser manuseada como um objeto. Sem romantismo, sem passageiros sentimentos que se desfazem na manhã seguinte. Ela já era tratada como uma mulher, mesmo não agindo como uma. Ela já era tratada como uma mulher, mas queria mais, queria ser uma puta. Sim, uma puta. Queria ser usada e largada em algum beco daquela rua escura. E agora se perguntava se era só desejo. E se era só desejo, se perguntava, por que não se entregava a esse desejo? Ela estava confusa queria e não queria ser usada. A caminhada acabava e ela voltava. Voltava pra casa, voltava pro quarto do bordel que ela estava presa. Para ser usada e largada, como o guardanapo que ela usava pra se limpar. Será que era só desejo?

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Um romance.


                                                      (Não achei uma foto legal)


‘’Um tanto maior que o normal’’
Por: Junior Nodachi


Um pedaço.


É um tanto maior que o normal, como o próprio titulo já diz. Não que eu faça histórias pequenas, não que eu me importe de mudar um pouco meu formato, não temos leitores. Por isso hoje Tudo começa normal. Uma história normal. Parar atrair o leitor em geral, devemos titular nossa história de romance compacto, e não simplesmente de texto. Eu gosto de textos, são cômodos, simples. Mas hoje precisamos de algo com mais corpo, com um fundamento, com impacto. Isso pode não passar de um simples desafio de uma mente cansada. Nova, banal, mas ainda uma mente cansada.
- Vamos crescer, meu bem. Mas sem deixar de sermos crianças. 
Ele fala vagamente, ela mal consegue escutar. Esta em seus braços, mas diferente do que parece, do que é comum. Lá fora não está frio. Não esta nevando, nem ao menos chovendo. Eles não viverem uma história de dificuldades para estarem juntos. Não existe um motivo, não existe razão, intervenção do universo, ou algo místico que os prendam um ao outro. Não são bonitos como os amantes dos livros consagrados, ou dos contos infantis. Arrisco a dizer que nem ao se sentem tão atraídos um com o outro de maneira forte e vivida como os velhinhos de família grande que vagam nos parques domingo atarde.
Todo começa com eles se beijando. Como qualquer romance deve começar. Algo que prenda sua atenção, que faça você imaginar. O longo apertar da sua mão na mão dela, um apertar forte, intimidador, protetor. Por algum motivo desconhecido desse pobre narrador que recorda a cena romântica, ela fecha os olhos. Ele conduz a sua mão para o pescoço dela, olha para seus olhos fechados e a puxa pra si. O movimento leva horas, dias, meses, uma eternidade. Visto de longe parecem duas estatuas. Duas molduras frias de bronze ou mármore. Os olhos dele vão se fechando levemente, junto com os braços dela que enlaçam o tronco dele. Mas um ato de proteção. Uma notória medida de filhos criados por mães.

‘’Somos uma geração de homens criados por mulheres. ’’ Uma frase conhecida, até onde eu me lembro. Uma frase verdadeira até onde me recordo. Alimentam-nos, nos criam, nos protegem. São assim nossas mulheres. São assim os romances. Nós não buscamos algo que nos complete, buscamos algo que nos foi dado e tirado, por isso nós crescemos. E por isso não deixamos de sermos crianças.

A mão dela vai abrindo caminho entre seus corpos, levemente, cuidadosamente. Vai abrindo espaço, fazendo seu caminho caminhos pelas vielas da carne, no mais conhecido le corps de l'être aimé. E finalmente seus dedos têm onde descansar. Repousam na face cansada dele. Repousam, mas não param totalmente. Não conseguem, estão vivos, estão em busca da forma mais bruta de carinho, da forma mais bruta de bem estar, de prazer. E lá eles continuam, por anos, por décadas, por centenas de anos.

Pessoas continuam a andar entres eles, mas esse não é um fato importante que mereça a atenção de um narrador enquanto um ato de dimensões bem maiores acontece perante suas lembranças. Vamos dizer que o cenário some, puff! Que as pessoas sumiram, que os pássaros congelaram ou que nem existiram. Vamos direto ao que todos buscam no romance. Ao que eu estou disposto a contar.

Dizem que existe uma linha tênue que separa o amor dos outros sentimentos. Dizem que o amor não passa de uma reação do cérebro. Logo esse amor, o objeto de trabalho de incontáveis poetas, filósofos e escritores em geral, o amor, um dos sentimentos mais famosos entre os seres humanos, é posto em dúvida aqui. Todos nós sabemos que o amor não passa do seu desejo sexual potencializado pela dopamina, um neurohormônio produzido pelo hipotálamo, que provoca a liberação de testosterona, hormônio que desperta o desejo sexual. O amor é uma sensação de união que é reforçada pela presença de ocitocina, que é sintetizada no hipotálamo e secretada no sangue pela pituitária. Em mulheres, a ocitocina estimula as contrações do parto, lactação e amor maternal. Tanto em homens quanto em mulheres está altamente durante o sexo e explode durante o orgasmo, tendo influencia na união do casal.  

Alguém vai deixar de amar depois dessa explicação? Eu realmente espero que não. Eu sou um narrador, mas gosto de ficar junto também. Enfim, continuando. Eles finalmente se beijam. Tudo começa com eles se beijando, como qualquer romance.


Dois pedaços.


Agora pulamos para uma parte onde ele morreu. Sim, nosso belo e romântico protagonista está morto, mortinho da Silva. Daqui eu consigo ver claramente, os destroços retorcidos do Dodge Charger rt 1970, comprado ilegalmente na mão de um estrangeiro qualquer por uma pechincha, segundo uma amigo dele. Ele adorava finalizar os sábados passando cera na lataria amassada gentilmente por ela quando manobrava de forma angelical em direção à garagem de sua casa. Ele adora procurar moedas nos enormes bancos de couro, tirados de um Chevy Impala 1965, e comprados pela metade do preço.  Era um ótimo lugar pra passar a anoite quando ela o botava para fora de casa.

Agora estava lá, todo aquele couro com espuma, e o recosto de bolinhas de madeira feito por ela, à mão. Estava lá, queimando e queimando. Um fogo belo, meio vermelho, meio azul. Agora ele se encontra aqui parado ao meu lado, ouvindo atentamente eu narrar esse pequeno pedacinho da sua morte.
Ele olha para mim... Continua olhando e nada fala. Melhor eu me apresentar, não me lembrava dele ser tímido. As pessoas podem mudar quando morrem, pelo visto.

- Muito prazer meu bom homem, eu sou o Narrador.
- Narrador? – Ele olhava com aqueles olhos de peixe morto, típicos de um homem morto.
- Sim, sou o narrador da vida, e hoje eu serei seu narrador.
- Como assim narrador?- Realmente eu não lembrava dele ser um cara tão lerdo em entender os fatos. É a morte, ela faz isso.
- Deixamos isso pra lá. Como você se chama?
- Eu... Eu... Eu me chamo... Eu não lembro como me chamo.
- Óh, um horrível fato, todos devemos ter nossos nomes quando morremos. É a única hora que precisamos deles, precisamos ser lembrados. Que tal olhar em sua carteira. Você tem uma carteira ai, não tem?
- Sim, tenho. Isso é estranho.
- Não discuta comigo, apenas olhe seu nome, para que possamos voltar a narrar sua morte.
- Esta aqui, Ângelo, chamo-me Ângelo.
- Lindo nome Ângelo, chamo-me Narrador, como disse antes, é um prazer imenso lhe conhecer. Agora pode ficar sentando ai se quiser, tenho um romance para narrar.
-Tudo bem... Eu acho.

Ahh, que pena. Perdi a chegada dos bombeiros e policias. Uma falta eterna par minha carreira de narrador.
A pericia constata que Ângelo dormiu ao volante, devido a algum motivo que será descoberto futuramente quando seu corpo for examinado. Agora a policia segue em um pequeno comboio de dois carros. As luzes embebedam os outros motoristas que seguem em sentido contrario. Um barulho de sirenes e chuva entra pelas janelas abertas dos apartamentos que ficam de frente para a ponte. Pelo visto os policias estão calmos, ou cuidadosos por causa da pista molhada. Uma situação plausível, visto que acabaram de informar a Ela que seu amado tinha falecido. Assim como eu, assim como você, esses policiais também devem ter suas famílias, seus problemas, seus romances. Seria imprudente arriscar tudo depois do exemplo que nosso amigo Ângelo deu. 


Três pedaços.

  A dor psicológica de um término é tão real como uma dor física.
A dor eterna de um término pode ser incomparável.
Ela estava encolhida, sentada no seu sofá da lã de alguma grife famosa, comprado pela sua mãe. Por que por ela, qualquer um estava bom. Ela era simples, mas de muitos detalhes, animaizinhos na estante, a cortina de miçanga, a bolsa de crochê comprada no mercado de artesanato. As panelinhas de barro com pinturas de um fazendeiro e sua esposa ficavam em cima da mesa de centro em forma de yin yang. 

 Ela chorava. Expelia pelos olhos suas dores, seus sofrimentos, suas angustias, seus sonhos. Lamentava e lamentava. Ela achava que Ângelo era o amor da sua vida, pelo menos o ultimo amor da sua vida. Antes ela teve vários últimos amores. O amigo do primário, o lindo alto do final da rua, a paixão do ônibus, o jogador de vôlei, o musico. Ahh, os músicos, foram seis ou sete. O trabalhador serio, o universitário, o medico e finalmente o Ângelo, que por sua vez não tinha nenhum adjetivo.

Ela chorava. Chorava por que depois deito tempo no carinho desordeiro dele, ela simplesmente deixa de ser a criança que prometera pra ele se tornara mulher. Ela ainda recorda dos olhos dele, olhos pretos como a camisa que vestia. Olhos tristes enquanto ela dizia que ele não era suficiente. Assim ela lembrava. Na verdade, ela simplesmente o ignorava, o deixava de lado, o deixa no escanteio. Ele era sem adjetivo, o que ele iria dizer pra mãe, para o pai, pra família. Ela dizia sempre, ‘’foda-se o que eles acham’’, mas por sua vez, sempre queria a opinião deles. E Ângelo era um homem sem adjetivos. 

Ela chorava. Chorava por não ter tido o filho que ele tanto queira. Filha na verdade, ele sempre dizia que não poderia ser mais responsável por um homem, assim como ele cuidara dos seus três irmãos. Ele queria outra dela na sua vida, uma copia menor, que ia crescer como muda de planta, como uma arvore na primavera. Sempre elogiava partes dela que ninguém tinha elogiado, queria ser lembrado, queria um adjetivo que não tinha.

Ela chorava. Chorava por nunca ter feito nada com ele, nunca ter matado ninguém com ele, nunca ter saído no carro dele. Ela achava o carro velho e bolorento. Agora um carro destruído e contorcido. Até o carro tinha adjetivos. Queria ter corrido com ele de mão dada, praticado seu esporte, ter bebido, mas bebido muito. Ele costumava chegar fedendo a bebida, de voz rouca, dizendo a amava. E ela respondia: ‘’ Você é legalzinho, mas não quando está bêbado’’. Queria ter conhecido a família dele inteira, queria ter roubado seu coração e botado em um vidro, pra guardar pra sempre, queria ter levado ele junto nas festas dos amigos, levar ele até na casa da tia pra fazer bordado. Ela o queria de volta.

Ela chorava. Assim foi um dia, uma semana, um mês, e nada. Chorava e chorava. Não comia, não reagia, não lutava. Se ele estivesse lá, logo mandaria ela levantar e ir ao parque mais ele, pra ela conhecer gente nova, pra ela se drogar, se pintar, se matar. Fazer qualquer coisa, menos ficar parada.  A dor psicológica de um término é tão real como uma dor física. E assim ela sentia, sentia e sentia. Era dor na perna, na barriga, dor no braço, na cabeça, o coração não parava, ela pedia que parasse, ela chorava e chorava.

Ela chorava. Mas agora não mais do mesma forma, não mais com lagrimas, não mais como podia. Todos já haviam ido embora, ela estava sozinha, e estava com medo. Tentava não pensar nele, mas a cada coisa que fazia lhe remetia o que ele fazia. Isso ainda a maltratava, mas ainda assim ela saia. Começou a ir ao mercado, arrumar a casa. De tempos em tempos até beber, bebia.

Ela chorava. E parecia ter envelhecido uns 10 anos. Sua pele estava clara como a neve que nunca vira, a não ser no cinema é claro. Branca e sem manchas, a não suas manchas. E como ele adorava cada mancha. Passava horas e horas alisando cada uma, olhando cada uma, conhecia todas, e apelidava todas. E as horas pareciam dias. As visitas aumentaram, os pais vinham, as tias, as primas. As amigas estavam sempre por lá, mas a maioria tinha casado. Ai como queria ter casado, ter tido o sobrenome estranho dele junto ao seu nome nobre. Como queria ter corrido nos becos escuros, subidos nos muros e ficado acordada até o raiar do dia.

Ela chorava. E voltou a chorar ainda mais quando via o Dodge Charger, que o homem do fim da rua vendia.


Quatro pedaços.  


- Anime-se! Temos que sair e ver o mundo.
E assim ela levantou do sofá de lã que passava as noites com ele e fio com a amiga. Foram para um bar, depois para outro e para outro. Toda noite era um diferente. Ela já tinha voltado ao trabalho, quando chegava lá estava sua amiga, em sua sala. Tinha dado a chave a ela pra alguma emergência, ou para o caso de esquecer a sua em algum lugar. Andava muito esquecida.

Nessa noite iram em uma festa agitada, com banda e pessoas alegres, ou em seu vago conceito de alegria, dançando e dançando. Ela estava belíssima, diga-se de passagem.  Meia-calça preta, uma saia de um bordado qualquer, uma blusa branca, um sutiã de renda, que dava pra se ver pelo decote. Eu não entendo muito de roupa de mulher. Mas para um simples narrador, ela estava magnifica.
- Não me olhe assim Ângelo, sabes que amo outra narradora. Mas meus olhos conseguem enxergar tal beleza ainda. Somos amigos Ângelo.
Algo de diferente aconteceu nessa noite. Ela acordou em um lugar estranho, em uma cama estranha. E o principal, com um cara estranho. Ele é bem apessoado, forte, tatuado, cabelo liso e um ar de presunção, mas ainda dorme. Dorme como Ângelo. Sinto-me feliz por ele não ter visto a noite dela, talvez por mim, talvez por ele. Não sei por onde anda a minha narradora que nem é minha, pode esta em qualquer história, mas a vida e a morte são assim.
Ela se sente culpada. Tão amedrontada, tão amarga... 
- Por que devo perceber o quão desgraçada eu sou? 

Ela volta pra casa, volta para o sofá, deita nos braços da amiga que dormiu por lá e dorme.  Na manhã seguinte ela viaja. Um dia, uma semana, um mês, um ano, uma década. Cada dia ela vai esquecendo ainda mais Ângelo, e cada dia Ângelo vai esquecendo um pouco mais dela. Viver no branco entre cada linha de um livro não é nada fácil no começo, não até você esquecer completamente de tudo que você tinha. Ângelo agora tenta aprender um pouco de narração comigo, mas confesso que ele não tem futuro nesse lado. Com exceção de uma destreza infalível para erros sintáticos, o que me ajuda me irrita de horas em horas.  

Ela volta pra sua casa. Nem acredita que tanto tempo se passou. Sua amiga casada com um afilha linda do lado. Olhos grandes como o dela, os outros traços devem ser do pai. Com o tempo reparo que ela se casou com o homem do final da rua. O homem que vendia Dodge Charger. Ela pergunta a ele se ainda tem o carro, e ele responde positivamente, dizendo que nunca conseguiu vender a lata velha.
- Eu estou interessada nele.
- Jura? Não é bem um carro feminino, e tem vários problemas, e sem falar que é bastante pesado.
- Não me importo, com o estado, só me venda.

Na manhã seguinte ele bate em sua porta, bem cedinho. Ela acorda do sofá, caminha até a porta e ela esta lá, com a filha no ombro e com um sorriso imenso.
- A senhora é dona de um Dodge Charger rt 1969 laranja madeira envelhecida com teto branco. Rodas originais aro quinze, vidros transparentes, motor semi-original sucateado, bancos em couro claro, e uma linda flor feita por essa criaturinha aqui com uma pedra na porta lateral esquerda.
- Obrigado.
- Não, eu que agradeço.
- Não, digo, a ela. Adoro flores.



Cinco pedaços (pedaço final)



Eu preciso finalizar esse romance, mas eu estou cansadíssimo.
- Ângelo, não quer termina pra mim?
- Você quer que eu narre o final de tudo?
- Sim.
- O que eu tenho a perder.
- A vida é que não é.
- Seu otário.

E então o narrador se senta entre uma linha e outra, bota as mãos atrás da cabeça e me observa. Eu não tenho muito que dizer, eu não vejo as coisas que ele estava vendo, pra mim está tudo branco. Ahh, agora vejo um carro, um carro parecido com o meu, mas esse é bem mais novo que o meu. Agora desce uma mulher de dentro dele.
- Tenho que descrever a mulher?
- Tem sim.
- Ah, tá.

É mulher de meia idade, linda pra idade dela, usa um tênis velho e o cabelo preso pra trás... Usa uma camisa preta de uma banda que eu desconheço e uma bolsa de crochê para o lado... Ela vem caminhando até min, pega minha mão, bota minha mão esquerda no seu rosto, e a direita em sua cintura. Agora fica olhando nos meus olhos enquanto eu narro, ela sorri um pouco, é realmente um sorriso lindo.
- Sentiu minha falta? – Ela diz de forma sarcástica balançando rapidamente a cabeça negativamente, mas ainda sorrindo.
- Sim. - Eu, Ângelo, o substituído do narrador preguiçoso digo.
- E agora? - Ela me pergunta.
- Eu não sei, vou perguntar pra meu narrador – Eu respondo pra ela.
Quando para o narrado ele esta fechando sua pasta e botando as paginas em branco dentro da bolsa de couro dele, com um adesivo do lado escrito: ‘’vai Tigers, rumo ao titulo’’.
- E agora narrador, o que nós faremos? – Eu pergunto para ele. E ele sem olhar pra nós me responde.
- Eu não faço a mínima ideia, se beijem e tal. – ele diz, e eu concordo. Olho pra ela e...

Tudo começa com eles se beijando, como qualquer romance. O primeiro que de todos. Aquele romance que começa sentado, pertinho um do outro, no sofá de lã. Durante a noite inteira. Mas isso não foi um romance, foi um piscar de olhos, foi um segundo, um minuto, uma hora, um dia...




Acabou.  Para gente.


Nota interessante ao leitor: Enquanto eu escrevia o ‘’terceiro pedaço’’, e me perdia nos detalhezinhos, imaginando cada coisinha, cada pedacinho de cena, cada quadro, minha comida que estava esquentando no forno, queimou, e eu fiquei com fome. Mas mesmo enjoado, comi biscoitos. E perdi meu peixe. Adoro peixe.   

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Mais uma janela




‘’Mais uma janela’’
Por: Junior Nodachi

Agora eu uso óculos, e enxergo embaçado, da pra ver o xadrez da parada e a letra corrida, velocista e arretada. Eu poderia limpar mais do que eu já limpo, mas a cada baforada ele embaça. Não que eu esteja reclamando, eu adoro essas baforadas. Todos sabem que a hora da baforada é uma hora sagrada.   

Quando você quer ver uma coisa diferente, você pode ver alguma coisa diferente. Pra que se limitar ao sonho, ao acontecimento inesperado? Eu gosto de transformar o que foi me dado, nesse caso enxergado. 
Horas posso ser um piloto de Caça, hora um motoqueiro apressado, um atirador de elite, um cientista, um advogado, um velho carrancudo, um cyborg quebrado, ou então ser só eu de óculos.

Agora eu peguei o ônibus certo, ajudou a não ficar embaçado. Sim, eu esperava mais. Um bocadinho e tal. Uma visão além do alcance, detalhes contornados, milhas de pixels enquadrados, uma mira. Mas estou ótimo, eu estou gato.

Eu gosto é quando embaça, fica tudo turvado, da pra fazer nuvem no céu, da pra fingir ser drogado. Ainda não me acostumei, ainda acho estranho, mas o que num é estranho hoje em dia? E se as pessoas mudam, coisa que eu não acredito, vamos mudar de novo, podemos ser quem nós quisermos. Hoje por exemplo eu sou um escrito falido de media idade, solitário, cheio de problemas de coluna, viciado em cigarro, e de sorriso bem humorado. Ando de chinelo e roupão o dia todo pela casa, litros de café tomados e sonos de horas e horas sonhados, pra digitar nem olho para o teclado. E sim, de meia idade, mas antenado, folha de papel é passado, sem falar que com óculos fica tudo borrado. E da pra ver que o texto está quase rimado. Como num cordelzinho, num poema, ou num verso cantado.